Vamos falar sobre amor?

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Se você nasceu na igreja, provavelmente já escutou diversos pastores pregando sobre a parábola do bom samaritano, talvez dezenas de vezes. O termo “bom-samaritano” é utilizado, hoje, como forma de descrever uma determinada pessoa que preza por gestos de amor que não escolhe pessoa “certa”, de amparo em momentos de fragilidade e insegurança.

A parábola fala, sim, de ajudar o próximo ou do clichê “fazer o bem sem olhar a quem”. Mas ela vai muito além disso. Jesus sempre ensinava em parábolas aos discípulos, e olhando por cima ou lendo rapidamente, as histórias que Jesus contava parecem simples ou bobas.

Esta parábola fora do diálogo torna-se apenas uma exortação ética para alcançar pessoas necessitadas, mas quando estudamos mais a fundo sobre a época e sobre o que Jesus estava querendo dizer com essas palavras, terminamos de ler ajoelhados.

Quer apostar? Vamos lá.

Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna? “

“O que está escrito na Lei? “, respondeu Jesus. “Como você a lê? “

Ele respondeu: ” ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’”.

Disse Jesus: “Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá”.

Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?

Em resposta, disse Jesus: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.

Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.

E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado.

Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele.

Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.

No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver’.

“Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? “

“Aquele que teve misericórdia dele”, respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: “Vá e faça o mesmo”.

(Lucas 10:25-37)

A parábola contada por Jesus começa por causa da pergunta de um perito que conhecia muito bem as leis. A pergunta que o homem fez deixa transparecer o medo e a preocupação que assolava o coração do homem, ele estava preocupado com a herança dele.

Jesus, sabendo que o homem conhecia bem as leis, pergunta qual é a maior delas. O homem então responde que ele deveria amar a Deus de todo o seu coração, alma e entendimento, e amar ao próximo como a si mesmo. Apesar de saber de trás para frente o que a lei dizia, o perito tinha um conceito distorcido de “amar ao próximo”, assim como os outros peritos e religiosos daquela época.

Veja bem. Naquela época, sacerdotes, levitas e religiosos só consideravam como “próximo” alguém de sua mesma nação ou descendência. Jesus queria redirecionar a visão deles para o verdadeiro amor.

Vamos tentar entender melhor essa parábola. De acordo com as leis do antigo testamento, o sacerdote que tocasse um cadáver ou alguém semi morto era considerado cerimonialmente impuro, isso mostra que o sacerdote que passou primeiro pelo homem ferido na estrada preferiu continuar “puro” aos olhos da sociedade e dos cristãos da época, seguindo sua religiosidade, e não ajudar o homem.

Estudiosos e historiadores contam que a estrada que levava até Jericó era muito perigosa, por isso, todos sabiam quem entrava e quem saia do caminho, tanto por segurança como porque era uma estrada relativamente vazia. Dessa forma, o levita, que estava logo atrás, sabia que seu sacerdote estava alguns metros ou quilômetros na frente, e certamente deve ter pensado “se o sacerdote, que é o sacerdote não tocou no homem, eu é que não vou tocar”.

O público, ao escutar essa história, provavelmente esperava que Jesus inserisse um judeu para ajudar o homem. Jesus, porém, maravilhoso e surpreendente como sempre, alterou o rumo da história ao apresentar um samaritano como o único que mostrou amor. Talvez isso não faça sentido para você hoje, mas deixe-me explicar o significado disso. Na época, os samaritanos eram considerados “indignos”, eram a minoria e parte discriminada e desprezada de Israel.

Talvez você não esteja achando essa história tão impressionante, ou o que eu estou escrevendo não é nenhuma novidade para você. E se eu te disser que esse samaritano, na verdade, representa Jesus?

Jesus, assim como o samaritano, não tinha glória ou pompa, foi desprezado entre os homens e sofreu todos os tipos de humilhações e dores. Ainda assim, aquele que não veio em um cavalo branco e que não usava uma espada de herói, foi o responsável por resgatar aquele homem, ou melhor, resgatar você.

Ele enfaixou nossas feridas, pagou o preço por nós e nos restituiu.

Naquele tempo, quando a pessoa não tinha dinheiro ou bens, ela se tornava escrava. Hipoteticamente falando, se esse homem melhorasse, ele seria escravo por um bom tempo, ou pelo resto de sua vida. Percebe o que o samaritano fez? Ele libertou esse homem da escravidão.

Jesus nos libertou de nossa escravidão. Ele pagou o preço.

Essa história se tornou impressionante para mim por diversos motivos. Jesus mostra que ter uma posição importante na igreja, estar sendo visto pelas pessoas, ser reconhecido ou até mesmo ter dinheiro ou status, não tem valor algum. Ler a bíblia religiosamente todos os dias ou ir a igreja todos os domingos não vai te trazer transformação nenhuma e ninguém vai ver nenhuma mudança na sua vida.

Somos transformados quando entendemos o que o amor de Deus fez com as nossas vidas e o verdadeiro sacrifício que Ele fez por nós quando não tínhamos absolutamente nada a oferecer. Dessa forma, o amor que sentimos por outras pessoas é quase que automático e passamos a enxergar  qualquer um como o nosso próximo, e não mais quem selecionamos.

Amar as pessoas envolve sacrífico. Envolve sair da nossa zona de conforto e fazer aquilo que Jesus fez, e aquilo que Ele faria se estivesse hoje em nosso lugar.

Pode ser que você não entenda porque Deus faria um sacrifício tão grande por você. Não ser capaz de entender pode ser um tanto quanto frustrante, mas se esse Deus coubesse no nosso entendimento, seria um Deus muito pequeno. Se as nossas mentes tem o tamanho de um copinho plástico e o amor Dele tem a dimensão de todos os oceanos juntos, seria estupidez tentar limitar o quanto Ele nos ama.

O fato é que Ele nos ama. E quanto mais o conhecemos, nos sujeitamos a ser aqueles a quem Deus envia para ajudar aqueles que estão deitados na estrada sem esperança, como nós já estivemos.

 

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