Relatos de um fracasso bem sucedido

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Como um jovem que foi criado em um lar cristão e que frequenta uma universidade cristã, eu tenho experimentado um fenômeno que gosto de chamar de “sucesso cristão”. Normalmente esse fenômeno ocorre em situações como essas:

“Nossa conferência lotou!”

“Nossa página do Facebook está bombando!”

“Já fazem oito semanas que estamos em primeiro lugar!”

“Alcançamos a marca de 100.000 membros!”

De onde surgiu essa ideia de “sucesso cristão” e por que temos equiparado a influência com fama e notoriedade?

Para muitos de sua época, Jesus era considerado um pobre, sem abrigo e um rabino blasfemo. Ele foi rejeitado e odiado por muitos. Ele falou de um reino que não era desse mundo, passou a maior parte de seu tempo com pecadores, quebrou as regras e lavou os pés sujos de muitas pessoas. E ele afirmou ser o Messias, o rei. Jesus não se encaixa na descrição de alguém conquistador e bem sucedido. A partir da perspectiva de sua cultura, Jesus foi um fracasso.

Até mesmo o Papa Francisco pensa assim. Em sua homilia na Catedral de São Patrício em Setembro, o Papa falou sobre o trabalho duro e o auto-sacrifício cristão. O perigo, segundo ele, é quando nós…

Medimos o valor dos nossos esforços pelo critério da eficiência, do funcionamento e do sucesso externo que governa o mundo dos negócios. Não digo que estas coisas não sejam importantes! Foi-nos confiada uma grande responsabilidade e o povo de Deus, justamente, espera resultados. Mas o verdadeiro valor do nosso apostolado é medido pelo valor que o mesmo tem aos olhos de Deus.
Ver e avaliar as coisas a partir da perspectiva de Deus chama-nos para uma conversão constante ao primeiro tempo da nossa vocação e – nem é preciso dizê-lo – exige uma grande humildade. A cruz mostra-nos uma maneira diferente de medir o sucesso: a nós cabe-nos semear, e Deus vê os frutos do nosso trabalho.
E se, às vezes, os nossos esforços e o nosso trabalho parecem gorar-se e não dar fruto, estamos a trilhar a mesma via de Jesus Cristo; a sua vida, humanamente falando, acabou com um fracasso: com o fracasso da cruz.

Quando Jesus chamou seus discípulos para segui-Lo, Ele não prometeu o sucesso. Na verdade, Ele lhes garantiu o fracasso: “Todos odiarão vocês por causa do meu nome.” (Lucas 21.17)

Ele disse aos seus discípulos a tomarem a sua cruz e segui-lo (Mateus 16.24-26). Disse-lhes que a porta é estreita e o caminho é difícil (Mateus 7.13-14). Disse-lhes que quem quiser ser o maior tinha que ser um servo (Marcos 10.43-45). Ele disse a eles que estava indo para a cruz (Mateus 17.22-23). Ele foi pra cruz. E muitos dos seus discípulos o abandonaram.

Eles o deixaram porque não entendiam por que Jesus veio. Eles pensaram que Ele tinha vindo derrubar Roma, para sentar-se em um trono glorioso e reinar sobre Jerusalém. Os fariseus queriam um reino terreno e os zelotes queriam um revolucionário rebelde. Jesus não era nem um, nem outro. Ele lutava uma batalha diferente.

Jesus veio libertar a humanidade da escravidão do pecado, de Satanás e da morte. Ele sabia que quando viesse para a Terra ele seria ressuscitado. Mas de qualquer maneira ele veio. Esse é maior ato de amor que qualquer um poderia imaginar.

O “sucesso cristão” não acontece quando chegamos no topo, sendo o mais popular, tendo vários seguidores, sendo o queridinho da galera ou sendo o número 1. Porque isso é como o mundo define o sucesso. O verdadeiro “sucesso cristão” ocorre quando seguimos os passos do nosso Salvador. Embora Jesus fosse Deus, ele se tornou homem e aceitou as limitações do ser humano.

Ele foi tentado em todos os sentidos e estava bem familiarizado com o sofrimento. Ele foi amaldiçoado, negado, cuspido, escarnecido e condenado. Ele teve uma morte brutal, a mais humilhante que poderíamos imaginar para a nossa salvação. O impecável se tornou pecado, clamando da cruz: “MEU DEUS, MEU DEUS, POR QUE ME ABANDONASTE?” (Mateus 27.46) Sim, Jesus conhecia o fracasso.

Porém, três dias depois, ele saiu do túmulo e derrotou a morte. Essa é a vitória. Isso é o sucesso em sua forma mais pura. Sucesso sacrificial.

Nós servimos a um Deus paradoxal. Ele é aquele que diz que o ganho mundano é a perda que custa a alma, que ao morrer vivemos, que no fracasso existe redenção. Jesus não nos prometeu o sucesso terreno caso optemos por segui-lo, porque o sucesso terreno nunca foi seu alvo. O que ele nos prometeu foi uma futuro tão glorioso que não poderia ser descrito em linguagem humana (1 Corintios 2.9).

O sucesso não é errado e a realização pessoal é um bom motivo para comemoração. Mas devemos lembrar que se tivermos sucesso, em qualquer coisa, é porque o nosso Deus gracioso permitiu, para a Sua gloria. Quando deixamos o mundo definir o nosso sucesso, caímos na idolatria.

Porque, no fim das contas, não é o que fazemos que traz um significado duradouro. Mas sim para quem fazemos isso.

 

Traduzido e Adaptado por Gustavo Neves. Original aqui.

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