Sobre quem é seu testemunho?

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Nós vivemos numa era de narcisismo. É uma era de auto atualização, uma corrida implacável para o melhor de nós.

A revista Time reportou em 2013 que “A incidência de transtorno de personalidade narcisista é quase 3 vezes mais alta em pessoas em seus 20 anos do que na geração que agora tem 65 anos ou mais…. aumentou em 58% o número de estudantes de faculdades que alcançaram o nível máximo na escala de narcisismo entre 1982 e 2009.

Assim o mundo se tornou mais narcisista, não é diferente com as pessoas que frequentam as nossas igrejas. Nós vemos isso na mídia social. Nós ouvimos isso nos cafés. Nós vemos isso quando jovens deixam de viver em grupos para tirar selfies.

Também vemos isso no nosso evangelismo. Uma década ou duas atrás o nosso evangelismo ainda apontava para fora. Nós falávamos da existência de Deus, a verdade objetiva e na verdade histórica da ressurreição. Agora, igrejas mudaram para liderar com testemunhos pessoais.

Essa contextualização não é necessariamente errada. Numa era pós-moderna, histórias são muitas vezes mais poderosas que a reivindicações da verdade objetiva. Testemunhos podem ser meios valiosos de compartilhar as Boas Novas sobre Jesus. Mas, numa sociedade onde até cristãos estão mergulhados num individualismo desenfreado e auto-idólatra, o nosso testemunho pode facilmente parecer como uma história de auto congratulação.

Embora alguns testemunhos pessoais são bons e pontuais, alguns se resumem a isto: “Olhe! Deus é bom porque eu eu eu.” Essas não são histórias que levam a Damasco, mas, simplesmente selfies pinceladas com espiritualidade.

 

Testemunhos selfie

Uma caricatura pode ser útil aqui. O exemplo abaixo é, infelizmente, somente um pouco exagerado.

Minha vida estava em frangalhos. Eu estava destruído. Eu fazia X, Y e Z. Você não acreditaria em algumas coisas que eu fiz. Eu encontrei meu significado no sexo oposto.

Mas, Jesus morreu na cruz para mudar a minha vida. Agora, eu agradeço a Deus por não ser mais como os meus amigos antigos. Eu vivo uma vida boa. Eu acordo todo dia com um propósito. Eu faço voluntariado. Eu sustento uma criança na África.

Ah, eu te falei? Eu tenho uma esposa cristã “gostosona”.

A boa notícia é que você também pode ter essa vida.

Isso não é o evangelho. Isso é um tipo de auto-ajuda narcisista que você pode achar em qualquer livraria. Com uma pitada de Deus.

 

Narcisismo, te apresento o pós-mordenismo

Então, como isso aconteceu?

Conforme o Ocidente começou a responder mais para a história do que para a razão, as igrejas se adaptaram, e isso foi bom.

Mas, as histórias que começamos a contar tinham cada vez menos Jesus no centro. Com o objetivo de evitar o debate, nosso testemunho se focava cada vez menos na existência e na glória de Deus. O problema é a mudança sistemática do foco para longe de Deus e para perto de nós mesmo e as nossas “vidas mudadas”.

Deus é bom porque …. eu – e as essas histórias seguem.

Não. Deus é bom porque ele é Deus. Ponto final (literalmente).

 

“Um evangelho por favor, mas sem café” 

Esse novo evangelho de vidas mudadas é um evangelho pequeno. É descafeinado. É centrado no homem, como um planeta sem sol.

Nós ouvimos ele encorajando assim: “Compartilhar a nossa fé é fácil! Só conte a sua história. Você não precisa saber muito da Bíblia. Deus quer mudar vidas. Jesus veio para mudar vidas.”

Isso é perigoso porque só é parcialmente verdade e nos faz o centro do evangelho. Nenhum dos argumentos acima são necessariamente errados, mas repetidos diminuem a glória de Deus e o evangelho completo, ele substitui o evangelho de Deus e coloca o homem no centro.

A triste realidade é que nós não somos os únicos evangelizando com base nas nossas vidas transformadas.

 

Verdadeiros testemunhos para deuses falsos

Nós nascemos para adorar. Se não a Deus, então nós adoramos qualquer um ou qualquer coisa. Ou, como na maioria dos casos, nós adoramos a nós mesmos buscando alguma causa. Nos dá um sentido de propósito até que nos cansamos e mudamos para a próxima coisa. Nós testemunhamos para o mundo sobre como este ou aquele estilo de vida nos mudou e nos transformou tudo. Isso está em todos os lugares hoje em dia.

Parece que muitas pessoas têm uma história para contar sobre suas vidas mudadas – mesmo não-cristãos. Eles selecionam e editam os detalhes de acordo com sua vontade, cortam o resto e pintam a narrativa que eles querem ouvir – a versão do Facebook.

Queremos que o nosso testemunho imite o mundo ou alcance o mundo? Então, por que jogamos o jogo dele? Por que diminuímos o verdadeiro evangelho para o evangelho de vidas mudadas e depois tentamos vendê-lo no mercado por aí a fora?

 

Vidas mudadas não é tudo

Muitas religiões, filosofias e até mesmo manias de saúde irão mudar você. Se você quer evidências disso, vá até a academia de CrossFit, yoga, ou loja de comida saudável mais perto de você. Essas vidas foram transformadas pela auto-atualização que eles mais idolatram.

Se vidas mudadas é tudo o que temos, isso não é muito.

É claro que isso não é tudo o que temos. Nós temos a glória do Deus vivo. E essa glória deve criar um abismo entre o testemunho secular de uma vida mudada e um testemunho cristão sobre Jesus Cristo.

O testemunho secular focado em nós mesmos diz como eu cheguei aqui apesar dos obstáculos da estrada.  O testemunho cristão é focado na Pessoa, no Grande Obstáculo no seu caminho  – aquela Luz Brilhante que nos tira do cavalo e nos cega e nos chama a nos arrepender e sermos batizados, e nos convoca para a sua grande obra, e que nós vamos até sofrer por causa dele.

Esse é o testemunho cristão. Mais sobre Ele e menos de nós.

 

 

 

Texto traduzido por Rosana Hungria e adaptado por Paulo Neitzke. Original aqui.

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