Setenta vezes sete

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“Conceder perdão, absolver de pena, isentar de dívida, aceitar, suportar, tolerar, poupar”. Estas são algumas definições que encontrei no dicionário Priberam da Língua Portuguesa – dicionário online, muito bom – para a palavra “perdoar”. Mas infelizmente esta palavra tem tido pouco ou nenhum sentido hoje em dia.

Este Brasil justiceiro de hoje, que luta contra o maltrato aos animais, às agressões aos homossexuais, a favor dos pobres, e contra a corrupção, está cada vez mais hipócrita, e perdoa menos. O mesmo cidadão que julga o agressor de animais agride o homossexual verbalmente (às vezes agressão física mesmo); o que defende a prisão perpétua e leis mais rigorosas aos bandidos e ladrões, não devolve o troco errado da padaria, sonega o imposto de renda. Mas este tem “desculpa”: ele só faz isso porque os impostos são altíssimos… onde já se viu gastar quase um terço do que se ganha no ano em impostos ao governo? E este, por sua vez, sustenta os políticos (cargo público que se tornou sinônimo de corrupção) e por aí afora.

Até os cristãos mais “certinhos”, por assim dizer, esperam que Deus os “vingue” de seus inimigos. Inimigos? Sim, os inimigos: os “chefe-do-meu-departamento”, “meu-vizinho-barulhento”, “aquele-folgado-da-escola”, “aquela-irmãzinha-da-igreja”, “aquela-denominação-igreja”. A luta não deveria ser contra a carne… Que confusão! Acredito que é por isso que Jesus falou tão empiricamente sobre perdoar.

Quando eu era criança, achava engraçado quando o pastor falava que nós devíamos perdoar uns aos outros mesmo que isso fosse uma tarefa difícil. Para mim era tão fácil! “Pô pastor, manda uma mais difícil” – passava pela minha cabeça – e seguia feliz, “isso eu já faço”. Saía do culto feliz, coração pulsante, alegria por poder dizer com a boca cheia: “tudo o que o pastor falou hoje, eu pratico, obrigado Jesus, por andar comigo e me ajudar a viver tudo o que eu tenho aprendido desde pequeno”. E era verdade, eu perdoava com facilidade. O chute maldoso no futebol, a bronca injusta da professora, a ofensa verbal dos colegas de classe, as brincadeiras sem-graça por ser magrelo. Tudo isso doía, feria, magoava, mas logo eu perdoava e era humilde pra reconhecer meus próprios erros e pedir perdão também.  Guardar ressentimento pra quê?

Pois é, mas o tempo passou. E de pressa, eu diria. Como num piscar de olhos, minha gaveta de ressentimentos estava cheia, já não tinha mais doze anos, perdoar já não era tão fácil. Meu Deus! Algo que era simples, natural, agora necessitava de tanto esforço… passei a me lembrar daquelas pregações “manda uma mais difícil”; agora seria “não precisa de mais novidade pastor, continue com a mesma de antes”. Senti-me como Adão e Eva que, ao comerem do fruto que Deus proibira, passaram a enxergar o mundo de maneira diferente, seus olhos se abriram. Sem querer, eu tinha inimigos. Que saudade da minha infância! Agora nos cultos, quando se falava de perdão, eu prestava atenção redobrada para reaprender “o truque” e voltar a perdoar com a mesma facilidade de antes.

Até que voilá, resposta fácil e decorada: “Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu: ‘Eu lhe digo: não até sete, mas até setenta vezes sete.’ Mateus 18:21-22”. Alguns até dizem que esta conta é por dia, sei lá. Sei que no começo foi legal. “É só perdoar 490 vezes por dia que tá tudo certo”. Espera um pouco… 490 vezes por dia? Quem, no mundo, conseguiria me fazer mal a cada 3 minutos? Nem que eu ficasse acordado 24 horas alguém seria capaz! Descontando as horas de sono, teriam que me magoar a cada 2 minutos, no mínimo.

Ficou mais difícil, agora além de não saber perdoar, precisaria fazer isto zilhões de vezes. Mas “a gente vai levando”, fingindo um cristianismo de amor e perdão, de falsa justiça, nos amoldando ao mundo, indo contra os problemas citados acima, e fica tudo bem. Afinal, vou à igreja todos os cultos, faço parte do ministério, não falo palavrão, não bebo cerveja, não vejo a pornografia que levam na escola, sou um cristão genuíno! Não consigo perdoar como me ensinam na igreja, mas isto é só um detalhe.

Pensava assim

Até que basta! Algo que machuca de verdade acontece, dói no âmago, ultrapassa os limites costumeiros de conflito emocional, cria-se uma fortaleza na mente e deixa cicatrizes profundas. Os “melhores-amigos” agora são indiferentes, seu brilho agora são trevas, questionar, tentar entender é pecado, rebeldia. O mundo revira. A morte de um ente querido ajuda a piorar a situação.

Nada mais de maçãs cortadas no colo suave da mamãe com açúcar. Nada mais de “neguinho da vó”. A culpa, que só o acompanhava quando quebrava uma louça na cozinha, ou se esquecia da lição de casa, insiste em ser sua melhor amiga, quer tomar o lugar dEle. E Ele? E agora? Sou culpado? Deixei minha família de lado pra servi-Lo… Ou servir à igreja?

Quanta culpa

Além de não perdoar os outros, não perdoava a mim mesmo. Tocar por obrigação, ir aos cultos por obrigação, até amar, por obrigação. A falta de perdão ia corroendo, destruindo a criança que já perdoou com tanta facilidade, e já adorou a Deus com tanta intensidade, “em espírito e em verdade” alguns diriam, era, de fato, de coração. Talvez seja por isso que antes de falar sobre o perdão em Mateus 18:21-35, Jesus fala sobre ser como criança. Os discípulos, adultos, vaidosos, queriam saber quem seria o maior no Reino dos Céus. Acho que nós damos tanta importância às coisas do mundo, ao material, carros, casas, roupas de marca, e às bobagens religiosas como cargo na igreja e nomenclatura de hierarquia…

É muita vaidade

Pensamos que o Reino dos Céus é como o mundo, pois só vivemos no mundo, e este é o nosso parâmetro. Acreditamos piamente, que como na Terra, haverá grandes e pequenos, bons e ‘mais-bons-ainda’, senhores e servos. Na verdade haverá um só Senhor. Naquele momento, Jesus foi além da pergunta, como sempre fazia, e deu uma das respostas mais brilhantes da bíblia:

“Chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus. “Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo. Mas se alguém fizer tropeçar um destes  pequeninos que crêem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se  afogar nas profundezas do mar. “Ai do mundo, por causa das coisas que fazem tropeçar! É inevitável que tais coisas aconteçam, mas ai daquele por meio de quem elas acontecem! Se a sua mão ou o seu pé o fizerem tropeçar, corte-os e jogue-os fora. É melhor entrar na vida mutilado ou aleijado do que, tendo as duas mãos ou os dois pés, ser lançado no fogo eterno. E se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o e jogue-o fora. É melhor entrar na vida com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no fogo do inferno”. “Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos! Pois eu lhes digo que os anjos deles nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai celeste. O Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido. “O que acham vocês? Se alguém possui cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixará as noventa e nove nos montes, indo procurar a que se perdeu? E se conseguir encontrá-la, garanto-lhes que ele ficará mais contente com aquela ovelha do que com as noventa e nove que não se perderam. Da mesma forma, o Pai de vocês, que está nos céus, não quer que nenhum destes pequeninos se perca”. Mateus 18:2-14.

Tudo faz sentido agora! Se você continuar lendo o texto, vai ver que Jesus fala sobre resolver os conflitos através de conversas reservadas, sem “picuinhas”. Mas quero me atentar para o texto dos versos 2 ao 14. Os discípulos perguntaram quem era o maior no Reino dos Céus, Jesus respondeu que se não se tornassem como crianças, nem ENTRARIAM, no Reino dos Céus. Que resposta! É como se Jesus dissesse:

“Vocês querem saber quem é o maior no Reino? Isto não item importância nenhuma! O que importa é entrar no Reino. A vida eterna. Torne-se como criança, seja puro novamente, pare de se preocupar com o status que você tem na sociedade. Brinque com a caixa, dê risadas com a pedrinha que pula na água, corra por correr, faça caretas na frente do espelho, seja criança de novo! E alcance a vida eterna. É inevitável que ocorram brigas, desavenças, aflições, mas ai daquele que fizer tropeçar aquele que é sincero, aquele que se alegra comigo nas coisas simples. Vocês preocupados com quem é o maior, e Deus preocupado com os que estão perecendo, indo para o inferno por causa da incredulidade. Tenham a vida eterna! Não despreze nenhum destes pequeninos, não trate nem sequer um deles com indiferença, não faça acepção, não faça amizades por interesses, não ‘puxe-a-sardinha’ para o filho do pastor, ou para a menina mais bonita, para o mais popular da turma; você não liga para os mais simples, não abraça os tímidos, ignora os diferentes, mas Meu Pai vai atrás deles, Ele quer dar a vida eterna; deixa as noventa e nove ovelhas nos montes, e vai atrás da perdida, da que está ‘fora da moda’, da que não pensa como você. Por incrível que pareça, ela merece a vida eterna tanto quanto você.”

Por isso era tão fácil perdoar quando eu era criança. Está claro! Eu não me preocupava com status, não ficava comparando meu carro com o dos outros, não precisava andar com a roupa da moda, não precisava provar que era alguém na vida. Eu apenas vivia, e mesmo não tendo tudo o que queria, era feliz. Muitas vezes, ao invés de sermos felizes com o que temos, somos infelizes com o que não temos, somos ingratos a Deus.

Tornar-se criança é isso: é voltar à época em que saber dois acordes no violão era o máximo! Saber uma ‘levada’ de rock na bateria, que façanha! O adulto sabe fazer cálculos de engenharia, fala dois idiomas, entende de botânica, canta como um passarinho, mas nada é suficiente. A descoberta, o ‘novo’, o ‘primeiro amor’ foi se esvaindo com o tempo. E sem amor, não há perdão. Aliás, perdão deriva do amor. É o amor em ação, ou reação. Percebi que na verdade, não é que perdoar passou a ser difícil (ou que era fácil na infância, você escolhe), o amor que ia acabando aos poucos, dando lugar às vaidades da vida adulta.

Passamos a ter inimigos, ou seja, deixamos de amar, porque quem ama não deseja o mal de ninguém, nem espera a ‘vingança de Deus’ como alguns cristãos insistem. Na vida, agora, é ‘bateu-levou’; levar desaforo para casa? Nunca! Mas aí vem Jesus com seu amor e ensina no sermão do monte que ‘antes era olho por olho e dente por dente, e agora, se alguém o ferir na face direita, oferece-lhe também a outra’.

Perdoe! É melhor perder a discussão do que perder o amigo, ou a esposa. Se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa, se alguém te acusar de alguma inverdade, não use suas ‘cartas na manga’, jogue-as fora, espere em Deus. Já que ser o maior no Reino dos Céus não era importante, e sim entrar no Reino como criança e não fazer o irmão tropeçar, Pedro tenta escapar pela tangente e se coloca no lugar do que entra no Reino, como sendo a vítima da situação, o famoso ‘se faz de santo’, e pergunta a Jesus quantas vezes ele deve perdoar o irmão que pecar contra ele, e ainda sugere o número sete.

Jesus dá mais uma de suas respostas brilhantes:

Jesus respondeu: “Eu lhe digo: não até sete, mas até setenta vezes sete.” Mateus 18:22.

E depois contou a parábola do servo mau, que teve sua dívida perdoada, mas não perdoou um devedor seu. O Mestre foi na ferida novamente, não para machucar (como fazemos muitas vezes), mas para sarar, Ele veio para isto. Ele acabou de falar sobre ser como criança, simples, sincero, e Pedro já vem com suas ‘certezas de homem’, sugerindo um número de vezes que se deve perdoar, ao próprio Deus?

“Espera aí Pedro, você não entendeu ainda? Está preso na mediocridade da religião? Nos “sete”, o número da perfeição? Você ainda anda sete vezes ao redor de ‘Jericó’ para derrubar ‘os muros’ da cidade? Banha-se sete vezes no rio Jordão? Não é mais religião aqui Pedro, agora é tempo da graça, o que manda é o amor. Vamos falar em números? Então multiplica essa sua ‘pseudo-ação-de-graça’ ao seu irmão por setenta! Sua religião diz sete, eu digo que é muito mais do que isso. Quem perdoa não volta atrás para contar quantas vezes perdoou, não faz conta, não pergunta o preço, simplesmente paga e perdoa, porque ama, não por religião. E quem pode negar perdão diante de Deus, que me enviou para morrer no seu lugar; Ele perdoou sua dívida, mas você continua cobrando a dos seus irmãos. Vigia rapá! Olhe o que aconteceu com o servo mau, que foi perdoado de uma dívida com seu senhor, mas negou perdão ao seu conservo.”

Mas, sendo o Mestre dos mestres, Jesus não apenas ensinava através de palavras, ele mostrava seus ensinos com atitudes. E o fez, deu o maior exemplo de amor e perdão que alguém seria capaz. Obedeceu a Deus, entregou-se na cruz para morrer pelos nossos pecados. Ensinou que não importa o preço, quem ama perdoa. O Perdão ‘passa a régua’, ‘faz a risca’, ‘pede a conta’, o Amor paga a conta. E foi isso que Jesus nos ensinou.

Setenta vezes sete? Por dia? Bobagem. Se eu chegar no ‘dois’, é porque não te perdoei na primeira. Quem perdoa não joga na cara, não repete na sexta, o que foi motivo de discussão da quarta. Não se ressente com a briga do passado, com a desavença de ontem. Mas perdoar não é fácil. Fosse assim, Jesus não teria que morrer em nosso lugar. Até para Deus foi difícil perdoar – custou a vida do próprio Filho.

Deus amou – e continua amando – o mundo de tal maneira que enviou seu único filho, Jesus, para morrer numa cruz, e fazer com que todo aquele que nEle crer não pereça, mas que seja perdoado dos seus pecados e viva eternamente com Ele no Seu Reino.

 

Escrito por Luiz Henrique Ramos Santana.

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