Recrutamento do avesso: como pessoas ruins podem gerar impacto positivo

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Uma boa parte do meu tempo no trabalho é me relacionando com profissionais de RH (Recursos Humanos) e auxiliando na intensa busca para atrair os jovens mais inteligentes, formados nas melhores universidades, com idiomas fluentes, experiências internacionais, prêmios extra curriculares  e com o famoso brilho nos olhos. Esses jovens são conhecidos como outliers. E esse é o estereotipo que as empresas buscam para entregar a missão de levar aquela determinada organização para um futuro promissor, eles serão os próximos CEO, CFO, CTO e todas as siglas que abreviam o sucesso corporativo na nossa sociedade.

Para ajuda-los nessa busca, tenho estudado algumas formas de como as pessoas se conectam com organizações e causas que despertam uma entrega total de diferentes perfis. Entre diversos livros, fui a minha fonte preferida: a Bíblia (é engraçado quando a gente muda a perspectiva da busca parece que a Bíblia muda completamente e traz respostas tão relevantes quanto se eu estivesse buscando o plano da Salvação). Pois bem, encontrei em Daniel 1.3-5 quase um programa de  trainee, olha aí:

 “Então o rei ordenou que Aspenaz, o chefe dos oficiais da sua corte, trouxesse alguns dos israelitas da família real e da nobreza; jovens sem defeito físico, de boa aparência, cultos, inteligentes, que dominassem os vários campos do conhecimento e fossem capacitados para servir no palácio do rei (aqui seria o filtro para triagem) Ele devia ensinar-lhes a língua e a literatura dos babilônios. O rei designou-lhes uma porção diária de comida e de vinho da própria mesa do rei. Eles receberiam um treinamento durante três anos, (aqui seria o onboarding e o programa de desenvolvimento) e depois disso passariam a servir o rei (aqui seria a área final do rotation)”

O livro de Daniel não trata de uma performance profissional e sim da fidelidade dele a Deus, mas achei interessante encontrar esse modelo de segmentação na Bíblia…continuei minha busca e avancei para o renomado time dos 12 discípulos/ apóstolos que propagaram o cristianismo.

Logo de cara é possível perceber que ali houve um processo de “hunting” feito pelo próprio Cristo, ou seja, ele não chamou muitas pessoas e foi cortando com base no que elas tinham ou não tinham, ele chamou pelo nome, foi certeiro. E era justamente isso que queria descobrir: quais habilidades, conhecimentos e técnicas aqueles 12 homens tinham para integrar esse grupo de elite.

Li cada chamado, procurei a biografia de cada um deles contadas pelos evangelhos, e para ser sincera, não encontrei nada de tão woow pelo qual eles poderiam ter sido escolhidos. André, Pedro, Tiago e João eram pescadores; Mateus cobrador de impostos; Simão não tem a profissão revelada, mas por ser conhecido como Zelote, poderia ser um revolucionário social, do tipo que curte uma manifestação e luta pelas minorias; Judas Iscariotes, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Judas Tadeu e Tiago, filho de Alfeu também não tem informações sobre suas profissões na Bíblia. Ou seja, dos que temos informações, nenhum era de grande destaque. Talvez nem fariam parte do processo descrito em Daniel.

Provavelmente nesse momento você já tenha pensado mil vezes: ah, mas é porque Cristo via o coração.. Concordo totalmente, mas não acredito que ali existiam 12 nobres corações, até porque ao longo da história eles passam por dúvidas, brigas e medos que qualquer ser humano passaria, sem contar Judas que foi para o outro lado, enquanto ainda estava no time.

Enfim, insisti mais um pouco nas minhas buscas e encontrei um texto, no site do movimento Capitalismo Consciente com o seguinte título: as melhores pessoas ou o melhor das pessoas? 

A sacada do título já me chamou a atenção, no texto que em resumo dizia:

“Ouvi alguém mencionar numa reunião a ideia consagrada de que as melhores pessoas trarão os melhores resultados, me vi refletindo sobre o assunto: “Será que sou a melhor pessoa para a minha empresa? E se não for, como eu vou saber?  E como eles vão ter certeza disso?”

 Estas perguntas me atordoaram por um tempo,  até que numa conversa com gestores de outra empresa, vários deles confessaram que se tivessem que passar pelo processo seletivo dos funcionários que eles entrevistam, muito provavelmente não seriam contratados.

Caramba! Estas pessoas trouxeram a empresa até aqui, construíram coisas incríveis, superaram desafios insanos e comentam isso como se não houvesse um lugar para elas ali dentro. Pois, teoricamente, apenas as melhores pessoas têm espaço nesta realidade. E estes profissionais não se reconhecem nesse grupo de pessoas.”

Eu não quero as melhores pessoas: eu quero a melhor empresa e a melhor liderança que trabalhem para que o melhor das pessoas possa aparecer. E, hoje em dia, já temos algumas pistas de como o melhor de cada um aparece. Isso acontece quando somos vistos pelo que somos, com o coração. Quando a nossa individualidade é bem vinda. Quando somos desafiados com dignidade, com tarefas que tenham propósito e que temos capacidade de aprender. Quando podemos nos perceber crescendo e quando nossos erros são considerados com respeito. Quando percebemos coerência nas relações, quando podemos nos expressar, quando podemos contribuir.

Era o que precisava pra compreender o  processo utilizado por Cristo, além de todo mistério envolvido na onisciência de Deus, o que guiava o “hunting” de Jesus não era confiar nas habilidades desenvolvidas pelos homens, mas na sua própria capacidade de extrair de qualquer pessoa o que ela tem de melhor.

É engraçado porque Cristo sempre diz para acreditarmos nele, mas a gente mal percebe o quanto ele acredita em nós. A começar pelo tamanho da causa que nos convidou para fazer parte, os recursos naturais e sobrenaturais que disponibiliza, além da cultura e valores do reino.

Na gestão Dele é permitido errar, pois existe perdão e não só desculpa; temos mobilidade para ir pelas nações e envolver o maior número de pessoas; temos benefícios terrenos e eternos; a meritocracia dá lugar a graça abundante; os incentivos para você se encher de títulos só tem valor se você se esvaziar; participamos de uma gestão horizontal, onde  a única regra hierárquica é quem quiser ser o maior que seja o menor, não existe discípulo júnior, pleno, sênior..  E isso não foi exclusivo dos dias em que Ele habitou entre nós.

Ele continua o mesmo, chamando pessoas sem qualquer destaque, para desenvolver a melhor versão delas.  É  bom saber disso quando nos sentimos parte de Sua equipe, mas também devemos olhar para o exemplo Dele e colocar em prática em nossas equipes e ministérios.

É natural nossos olhos brilharem quando encontram aquele talento, que entende tudo o que falamos, que aparece com sugestões mágicas, que vira a noite trabalhando no projeto, mas nosso desafio não é babar em cima das melhores pessoas, mas sim desenvolver o melhor de cada um, como Cristo faz. A glória Dele é democrática. E essa é a meta.

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