Por que vou à Igreja mesmo quando sinto não gostar dela?

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Tenho as mesmas lembranças que muitos dos evangélicos que cresceram dentro da igreja: as histórias bíblicas no flanelógrafo, os lanches da escolha bíblica e as letras do louvor nos retroprojetores.

Mesmo antes de ter crescido o suficiente para assistir os sermões durante os cultos, a igreja já era um desafio em minha vida. Por vezes eu ficava entendiada, às vezes eu gostava. Porém, ir ou não à igreja não era uma  questão de escolha – era exatamente o que todo mundo fazia.

A medida que fui ficando mais velha, percebi que nem todos iam à igreja, mas deduzi que isso fazia parte do imperativo moral de uma pessoa. Para mim isso significava que eu estava levando a minha fé a serio, sendo uma boa pessoa e fazendo Deus feliz (ou evitando a ira de Dele). No momento em que já tinha crescido o suficiente para me juntar ao grupo de jovens, outros fatores reforçaram a minha participação: era a igreja em que meus amigos estavam, os meninos bonitos frequentavam as reuniões e grande parte da minha vida social tinha base naquele lugar.

Minha ida para a faculdade significava que meus pais não me levariam à igreja e a minha vida social deixaria de estar sediada naquele local, mas eu ainda via a minha presença como um requisito básico para seguir Jesus. Onde mais eu poderia fazer crescer a minha fé e encontrar uma comunidade espiritual?

Porém, ao longo dos anos algo estranho aconteceu. Caminhei com Jesus fora da igreja e indo para as ruas, vivendo em comunhão com pessoas sem-teto, comendo fatias de pizza e ouvindo sermões de pessoas que viviam nos abrigos onde eu servia lanche nos domingos de manhã. Jesus se apresentou em todos os tipos de lugares improváveis.

Continuei viajando ao lado de outros cristãos e não compreendia a importância de frequentar a igreja. O que me ocorreu foi que, mais importante do que a frequência que eu aparecia no culto de domingo, era a frequência que aparecia para as pessoas que estavam em necessidade: ouvindo em silêncio, chorando com elas, partilhando a minha comida e meu tempo, me juntando as suas vozes para exigir justiça.

Quanto mais eu aprendia sobre a pobreza e a injustiça sistêmica, mais frustrada eu me tornava com as igrejas cuja programação semanal era desconectada do mundo além dos santuários. Eu estava cansada da oração sem ação; fórmulas espirituais simplistas, sem qualquer menção ao Evangelho que Jesus pregou: uma boa notícia para os pobres, a liberdade aos cativos e vista aos cegos. Perdi a esperança de que a maior parte da Igreja jamais se uniria e agiria em conjunto para se assemelhar à Cristo.

Mas, em seguida, outra coisa estranha aconteceu. Eventualmente, enquanto eu seguia Jesus, Ele me trouxe de volta para a igreja. Fiquei surpresa. Haviam muitas pessoas trabalhando em prol da justiça. Percebi que a igreja não era um lugar para ir porque todo mundo tinha que agir em conjunto e fazer as coisas certas.

Ela era mais como um refúgio onde todos os tipos de pessoa se reuniam para lembrar um ao outro da história que todos estávamos vivendo – a história de como Deus nos ama e está renovando o nosso mundo e as nossas almas, apesar de todo os danos que foram feitos. Era mais como uma escola de conversão, onde todos estavam tropeçando em aulas básicas sobre como amar.

Cantamos sobre esse amor e essa missão de ser parte dela, cantamos sobre o nosso quebrantamento e a nossa esperança. Olhamos uns aos outros nos olhos. Confessamos os nossos pecados. Compartilhamos o pão e o suco, lembrando que estamos todos juntos nessa família disfuncional que foi remendada por Ele.

Não era perfeito – às vezes eu me sentia frustrada, entediada ou ferida – mas era bom, e Deus estava nela. Sim, as pessoas na igreja poderiam ser apáticas, críticas e egoístas, mas eu também poderia ser assim. E, assim como todos os outros, eu precisava ser acolhida e amada de qualquer maneira.

Um dia, então, uma senhora colocou a mim e ao meu marido como encarregados de encontrarem pessoas para servir toda semana na igreja. Nós ainda eramos um “novo casal”, então tenho certeza que ela apenas estava tentando fazer com que tivéssemos uma assiduidade consistente – e o seu plano realmente funcionou.

Agora que nos foi dada esse pouquinho de responsabilidade, reconhecemos quanto as pessoas precisam estar presentes de maneira consistente para criar esse acolhedor espaço de oração e adoração que experimentamos toda semana. Se todos os envolvidos na condução do louvor, no controle do som, no ensino às crianças e na pregação do sermão estivessem presentes apenas nos dias que eles não estão estressados, ocupados, cansados, aborrecidos, tristes ou frustrados, nós com certeza não teríamos uma igreja.

Então, lentamente aprendi que ir à igreja pode ser algo além de exigência moral, medo de punição, conexão social, alimento espiritual ou a procura por pessoas de pensamento similar. Ir à igreja pode ser a criação de um espaço em que podemos experimentar a graça de Deus, aprendendo, falhando, perdoando e tropeçando todos juntos.

Já me beneficiei do compromisso e sacrifício consistente de inúmeras pessoas que me acolheram na comunidade ao longo dos anos, e agora reconheço o convite que eu mesma devo fazer aos outros: manter esse espaço, mesmo nos dias em que eu não pareça estar me beneficiando pessoalmente dele. Quando as canções não me fizerem sentir nada, quando eu não quiser falar com as pessoas sobre a minha semana difícil ou quando eu preferir dormir em vez de estar na igreja – é nesse momento que eu sou convidada a estar igreja de qualquer maneira.

Não porque Deus ou qualquer outra pessoa está me julgando pela minha presença, mas porque é uma chance de ser igreja para as pessoas que estão compartilhando dessa viagem comigo. É uma oportunidade de cuidar do espaço para que as pessoas encontrem a Deus. E é uma oportunidade de abrir espaço para que eu encontre a Deus no meio das pessoas que estão na igreja, mesmo quando eu menos esperar.

 

Traduzido e Adaptado por Gustavo Neves. Original aqui.

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