Por que precisamos de super heróis imperfeitos?

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Na minha infância, o Superman era o super-herói mais legal de todos. Ele era forte, rápido e justo. E ele podia voar, o que vamos ser honestos, é o melhor super poder. Para um ser com poderes sem precedentes, ele foi incrivelmente altruísta. Ele foi quase perfeito. De vez em quando ele causava problemas, mas isso acontecia quando ele tentava corrigir outro erro (sempre com as melhores intenções).

O Superman foi um farol de luz. Ele representou um mundo em que o certo e o errado eram conceitos simples e determinados. Não existiam áreas sombrias.

Mas com o passar do tempo, algo mudou. Uma mudança cultural. O Superman, seu otimismo colorido e a sua clara busca pela justiça tornaram-se um simples divertimento e não uma coisa para se admirar. O que antes era estimado como grande virtude é visto como ceticismo e descrença. A era do Superman passou. Ele ainda está por ai, sendo confrontado pelo Batman, fazendo-o parecer mais complexo. Mas sua figura heróica tem sido substituída por protagonistas imperfeitos e complexos como Deadpool, Wolverine, Senhor das Estrelas, Arqueiro Verde, Batman e o Demolidor.

Os heróis adorados pela sociedade moderna não são exemplos morais de justiça, vivendo em picos inatingíveis de princípios e práticas. A série “Demolidor” tem sido um enorme sucesso no Netflix. Parte daquilo que torna a série tão interessante é que ela é sombria e brutal (o Justiceiro que o diga). Matt Murdock falha tantas vezes quanto obtém sucesso. O que ele tenta fazer pode até ser nobre, mas seus métodos muitas vezes são questionáveis e sua busca por justiça é prejudicada constantemente por suas próprias imperfeições. Ele é profundamente falho e nós gostamos dele por isso.

Nós amamos os heróis. Gostamos da ideia de que existe alguém com grande poder, determinação e habilidade que pode corrigir tudo aquilo que está errado no mundo. Mas nós não estamos a procura de heróis que estão acima de nós. Procuramos heróis que são como nós: falhos, quebrantados, confusos e torturados. Não queremos ser apenas resgatados. Queremos acreditar que pessoas desajeitadas como nós podem se tornar grandes.

A IGREJA DO SUPERMAN

Os super heróis são reflexo da sociedade. Eles revelam aquilo que desejamos, aspiramos e valorizamos. Os super heróis e a religião têm muito em comum. Ao longo dos anos, a Igreja tentou ser como o Superman. Estivemos tão concentrados na pureza exterior que nos tornamos pessoas sem a capacidade do relacionamento. Nos concentramos em seguir as regras, apesar de Jesus ter se levantado contra o regime ritualístico.

Ao longo da história podemos observar as mesmas tendências acontecendo: na antiguidade, os sacerdotes se destacavam através de rituais e práticas complexas e demoradas demais. E coisas semelhantes ocorrem ainda hoje.

A Bíblia nos diz para sermos santos, mas muitas vezes interpretamos isso como a necessidade de sermos perfeitos. Pensamos que “ser santo” significa vestir, agir, falar e pensar de uma determinada maneira. Alguns dos possíveis efeitos colaterais relacionados à essa atitude incluem irrelevância, falta de confiança, hipocrisia, complexos de superioridade, julgamento e a falta de uma transformação autêntica de vida.

Não estou dizendo que não precisamos nos esforçar em sermos santos. Quero dizer que se a nossa abordagem à santidade nos impede de amar verdadeiramente a Deus, amar o nosso próximo ou alcançar efetivamente os perdidos, pode ser que tenhamos compreendido mal o conceito bíblico de santidade. E se a santidade for menos sobre a condenação do “comportamento mundano” e mais sobre como amar as pessoas?

Não possuímos uma conexão direta com o Superman. Ele dificilmente se machuca. Ele se cura rapidamente. Ele raramente parece estar em conflito sobre aquilo que ele está fazendo. Quando o Demolidor cai de um edifício, ficamos balançados. É como se nós sentíssemos aquilo que ele está sentindo. Não queremos líderes para nos dar ordens. Queremos líderes que se relacionam conosco. Quando olhamos para estes heróis imperfeito, podemos nos ver neles.

A REALIDADE

Precisamos entender uma coisa: o Superman não perdeu o prestigio porque ele não era bom o suficiente. Ele perdeu o prestigio porque ele não era real. Às vezes os cristãos fingem ser “super pessoas”: completamente puros, nobres, honestos, bons e generosos. Podemos desejar essas coisas. Mas muitas vezes fingimos ter mais dessas qualidades do que realmente temos. E eufemismos convenientes não mudam os nossos corações.

Fingimos que não somos atingidos pelos mesmos desejos e tentações que os “pecadores mundanos”. Os cristãos perderam a sua influência, seu relacionamento e sua estima porque o mundo os capturou. As pessoas de fora dizem ter visto e escutado muitas histórias sobre cristãos ignorando a necessidade dos outros, maridos “piedosos” que traem suas esposas e de crentes que se aproveitam de outras pessoas para obter ganhos pessoais.

O mundo sabe que não somos tão bons quanto fingimos ser, ainda que frequentemente sentimos a pressão de nos apresentarmos como algo que não somos de fato. Se queremos ser eficazes neste admirável mundo novo, temos que parar de agir como se fossemos o Superman. Precisamos parar de fingir que não temos problemas. Temos que parar de esconder as nossas lutas e nossas falhas. Ser transparente está tão na moda porque isso reflete “autenticidade”. Mas estar na moda não é o ponto. Mais do que transparentes, precisamos ser vulneráveis. Precisamos ser reais!

As pessoas não estão à procura de cristãos que pensam, agem ou acreditam ser melhores do que os outros de alguma maneira. O que elas querem (e talvez até mesmo precisam) são de cristãos que são como eles: imperfeitos e reais. Elas precisam ver pessoas que amam a Jesus e não pessoas que fingem não precisar Dele.

Nós temos a oportunidade, assim como com a mulher no poço em João 4 ou com o cego curado em João 9, de usar as nossas histórias, nossas vidas, nossas fraquezas e nossas vergonhas. Tudo isso serve para falarmos às pessoas sobre Deus. Não precisamos colocar máscaras. Não precisamos ter a pretensão de sermos perfeitos, dizendo que não temos problemas, vivendo como nada nos ferisse ou tendo a resposta certa para tudo. Não somos o Superman. Não somos à prova de balas ou à prova de pecado.

Amamos os heróis imperfeitos porque eles pelo menos tentam. Às vezes eles falham. Mas quando falham, eles próprios admitem os seus erros e eles trabalham para corrigi-los. Eles não fingem ser perfeitos. E nós também não devemos. Não precisamos fingir ser algo que não somos. Podemos ser reais. Podemos compartilhar dessa realidade com os outros. Deus pode usar essa realidade para mudar vidas, inclusive a nossa. Quando pararmos de tentar convencer as pessoas de que somos perfeitos, então Cristo poderá nos fazer um pouco mais semelhantes a Ele.

 

Traduzido e Adaptado por Gustavo Neves. Original aqui.

 

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