Por que devemos orar por Paris e Mariana?

0

Por que devemos orar por Paris e Mariana?

A resposta parece meio óbvia: pra que Deus console as famílias das vítimas. Mas apenas isso? É fato que nos voltamos a Deus em súplicas quando a situação está fora (do nosso) de controle e ambas as situações se caracterizam como tragédias. Por um lado ficamos aterrorizados com a fúria dos homens, por outro ficamos imobilizados pela fúria da natureza (reagindo a intervenções humanas). Nesses dois casos vimos vidas desaparecerem como neblina.

Ou seja, nos vimos como mero espectadores, incapazes de controlar o contexto. Principalmente nessa geração marcada pela vontade de mudança, por criar coisas novas, controlar o futuro e mensurar o hoje, a sensação de impotência nos afronta radicalmente.

Quando oramos em casos como esses, me admira quem consegue ser sereno e pedir em tom calmo por consolo e ajuda divina. No meu ponto de vista, essas são situações que nos colocariam em uma longa conversa com o Criador sobre como Ele permite tais coisas (um estilo meio Habacuque). Mas talvez essa rebeldia não durasse muito, afinal Deus permite a vida, mas desde sempre escolhemos a morte.

Para os mais céticos a oração seria ineficiente já que o pior já aconteceu. Para os mornos a oração seria um “check” na lista de afazeres humanitários, seguindo a dieta para eliminar culpas. Para os fervorosos a oração é saber que, de alguma forma, Deus irá agir. Não precisamos nos incluir em um grupo, pois acredito que tais pensamentos passam pelas nossas cabeças independente de como nós a intitulamos.

Muitos nunca deram um “oi” lá pra cima e estão compartilhando a hashtag “prayForParis”. Até mesmo aqueles que não acreditam na existência de Deus tiram um momento para enfatizar que realmente não existe um ser divino, usando das tragédias para provar sua opinião. Deus está no centro da conversa mais um vez e as pessoas, mais do que falar Dele, compartilham o desejo de falar com Ele. Isso por si só poderia ser mais uma resposta para a pergunta inicial.

Embora adoraria, creio ser inútil aproveitarmos a oração para pedir algumas explicações sobre os fatos. Quem tem o hábito de acompanhar os feitos de Deus pela Bíblia percebe que Ele não é muito de antecipar a cena, embora nossa ansiedade transborde.

Para um Deus com planos maiores e insondáveis, seria perda de tempo querer nos explicar os próximos passos. É algo como querer discutir sobre física quântica com um recém nascido, só porque ele está chorando. O único que teve oportunidade de “tirar satisfações” com Deus sobre a situação que estava vivendo obteve mais perguntas do que respostas (salve Jó). Acredito que essa não seria uma boa linha de raciocínio para responder a questão central.

Então por que devemos orar por essas tragédias? Quando falamos sobre fatos como esses, reconhecemos nossa insuficiência. Deveria nos impressionar como em um mundo com tantos recursos, planos, estrategias e informações, a ação mais compartilhada pelas pessoas seja a de orar. Não pense que é a opção mais fácil, pois não é. Ao fazer isso, atestamos que não somos tudo aquilo que achamos ser e que dependemos constantemente da graça e misericórdia de Deus para sobreviver ao mundo que “criamos/destruímos”.

Essa posição nos individualiza, reduzindo nossa percepção sobre nós mesmos. Isso dói.

Nesse mesmo diálogo clamamos pela dor do próximo, embora estejamos muitas vezes no conforto do nosso quarto. Nos colocamos na situação de desespero das vitimas e familiares, mesmo que, para enxergar o outro, precisaríamos nos enxergar naquela situação. Por instantes conseguimos nos aproximar em espírito do nosso próximo. Nos vemos como uma raça e somos tomados pelos sentimentos mais primitivos. Nos conectamos sem sinal, sem fibra e sem cabo. Cor, gênero e credo ficam em segundo plano.

Com as portas fechadas, é como se nos encontrássemos novamente no Éden após engolir o último pedaço da nossa desgraça, suplicando ao mesmo Deus que culpamos pelo nosso próprio erro. Enquanto oramos somos um no plural – uns aos outros.

Devemos orar também porque queremos uma resposta e embora o resultado mais esperado de uma oração seja o que virá depois de conclui-la, é inevitável perceber uma transformação enquanto clamamos. O ato de falar com Deus se mantém pela fé que existe um Deus que ouve e que aquela ação não é um loucura. O conteúdo que apresentamos diante Dele nos revela mais sobre nós mesmos, um alto-conhecimento extremamente simples e eficiente.

Longe da perspectiva de usar da oração como uma maneira de mover o braço de Deus, acreditando que a súplica é um supino celestial. A oração é capaz de mover nossas mãos em direção ao próximo e, enquanto apresentamos a causa pela qual clamamos, nos esvaziamos das adversidades e conseguimos enxergar a situação com uma perspectiva dependente, mas ao mesmo tempo influente, reconhecendo que sozinhos não podemos resolver tudo aquilo, mas que somos parte importante no agir de Deus.

Por fim, orar por Paris e Mariana nos torna mais parecidos com Cristo. Choramos diante do Pai, notificando-O sobre o caos no qual estamos inseridos, sentindo o aroma do cálice amargo que o pecado faz questão de servir para brindar a morte. Porém, podemos nos recordar que na cruz, Cristo transformou esse cálice de morte em vida.

Orar também nos lembra que embora mortais, somos eternos. #PrayforParis #PrayforMariana #PrayforHumanity #PrayEveryday

No more articles
Fé inteligente todo mês na sua caixa de entrada?