Pare e pense: por que você faz isso?

2

Algumas palavras marcam gerações, seja pela forma como elas expressam um desejo ou pela maneira como revelam um comportamento. A frequência com que são ditas, lidas e escritas embalam muitos pensamentos. A palavra da vez é: propósito.

Se antes ter um propósito era algo utópico e exclusivo dos idealistas, hoje ele é a regra básica em diversas esferas das nossas vidas. Não queremos fazer só por fazer, mas naquilo que nos propomos a executar buscamos uma finalidade clara, transformadora e de grande impacto… até a segunda página.

Recentemente estava refletindo o porquê de algumas coisas e o fluxo (quase) natural que temos de nos conectar fortemente por propósitos em comum e perder lentamente essa conexão a medida que realizamos certos processos. Eu não sou contra processos, apesar de ser de humanas, mas seguir uma receita que nos leva ao objetivo final muitas vezes é o risco que corremos de nos tornarmos motores ao invés de transformadores. Espera ai, vou exemplificar.

As leis dadas aos Judeus (no antigo testamento) tinham propósitos perfeitos. Eles falavam sobre manter a vida, praticar o amor, guardar o corpo do pecado e de doenças, viver em uma sociedade justa e generosa. Porém, com o passar do tempo, eles ficaram tão bons, mas tão bons em executar, que já se sentiam no direito de apontar quem fazia errado. Só que eles se esqueceram completamente do porquê aquilo existia e qual era, de fato, a essência daqueles comportamentos. Resumindo, eles se tornaram robóticos.

Então Cristo veio e mostrou que era possível alterar o método em resgate do propósito original. Ele deixa claro que o espirito de arrependimento era o objetivo de uma oração que agrada a Deus e não simplesmente repetir palavras em voz alta, várias vezes ao dia. Mostrou também que você pode ajudar um próximo que é de um povo diferente do seu, que você pode perdoar ao invés de apedrejar e por ai vai. Ele resgatou o propósito e ensinou como agir. Lemos, mas será que aprendemos?

Repara em quantas coisas surgem com propósitos incríveis e em pouco tempo se transformam em fardos pesados e linha de produção. Isso não é exclusividade de um grupo, vai desde o surgimento de projetos pessoais até a criação de grandes movimentos e tecnologias.

O propósito das redes sociais era aproximar e diminuir a distância entre pessoas. Hoje, de certa forma, ela aproxima quem tá longe e afasta quem tá perto.

O propósito de criarmos uma atmosfera em um culto com som, músicas e expressões corporais era levar as pessoas a adorarem em espírito e em verdade. Muitas hoje muitas igrejas só fazem por fazer ou porque precisam manter a aparência de descoladas se não perdem público, gera briga e mais fardo do que prazer e adoração.

O propósito de praticar exercícios é fortalecer o corpo, ficar fisicamente mais saudável. Uma boa parte quase morre pra ganhar definição dos músculos.

O propósito dos movimentos sociais era promover a igualdade, hoje é cada um defendendo o seu e criticando os outros.

O propósito do avião, da internet, do dízimo, de ONGs, empresas, enfim, a lista é bem grande.

O mais intrigante é que esse distanciamento do propósito original não acontece debaixo do nosso nariz, acontece dentro de nós. Quando percebemos, a nossa busca por fazer algo tão excelente toma conta da nossa mente. A partir daí sabemos muito bem o que fazer, como fazer, mas esquecemos do porquê fazemos.

É ai que você se remete aquela fase da infância, conhecida como “fase do por que?” e percebe como as pessoas não conseguiam responder uma série de questões. Não era simplesmente pressa ou má vontade, elas apenas haviam se esquecido. Por que? Porque infelizmente na maioria das vezes nossa capacidade de executar ultrapassa nossa habilidade de repensar.

Não é um fator apenas cultural, mas fisiológico, uma vez que aprendemos um comando e repetimos com frequência ele entra em modo automático no nosso cérebro, para que ele ganhe mais agilidade no processo de tarefas mais complexas, por exemplo: a gente não repensa como escovar os dentes, aprendemos e fazemos da mesma forma a vida toda. Porém esse mecanismo é válido para outras situações com impactos bem maiores e é exatamente aí que a transformação das nossas mentes se faz extremamente necessária.

O Resgate

O primeiro passo: se questionar do porquê você faz determinada coisa. Isso te leva a uma timeline de experiências que resultam no propósito, então você consegue avaliar o quão afinado está a forma como você faz com o motivo pelo qual você faz.

Depois, pense se existem novas formas de fazer aquilo que irão te aproximar ainda mais do seu propósito. Caso tenha, comece intercalando a nova forma com a antiga e analisando os resultados. Ver que está funcionando nos estimula a continuar fazendo.

Sempre relembre o propósito das decisões e afirmações que faz sobre si. Se você é um líder, além do seu propósito pessoal, existe um propósito da posição que você exerce. Existem expectativas definidas a nível social sobre a sua posição e o seu propósito pessoal não pode se desvincular disso.

Visão do todo

O propósito pode ser apresentado de forma simples, mas geralmente ele tem um tamanho grande, onde é necessário incluir mais pessoas para realiza-lo, ou seja, enxergar o todo é essencial para identificar o avanço do propósito.

Não adianta olhar apenas para a sua igreja, quando o propósito de alcance envolve todas as igrejas. Não adianta olhar só para a sua empresa, quando o propósito visa uma mudança no mercado. Perceber as esferas que o propósito pelo qual você contribui envolve, te ajuda a identificar o momento que é mais propício se afastar dele.

Voltando na marra

Eu acredito que o amor é o elo mais forte na conexão entre pessoas e propósitos, mas também acredito que é na dor que fazemos o exercício acima de forma espontânea. Muitas pessoas buscam encontrar propósito porque junto com ele vem as sensações mais desejadas pelo ser humano: se sentir amado, se sentir útil e obter respeito.

A dor nos leva a buscar com toda a força essas sensações, com a intenção de acabar com ela. Porém creio que, com momentos dedicados, através da reflexão é possível reajustar a rota sem que aconteçam grandes colisões.

No more articles
Fé inteligente todo mês na sua caixa de entrada?