Os cristãos e a cultura (fracassada) do boicote

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O nosso dialogo não deve ser sobre como reprimir a cultura. Mas sobre como se envolver com ela.

Na semana passada, a ABC (canal de televisão americano) foi ao ar com uma nova versão dos Muppets. Embora a mais recente versão da franquia satírica tenha recebido diferentes críticas após sua estreia, a série esteve sujeita as mais duras críticas antes mesmo de estrear – vinda dos cristãos.

Dias antes do primeiro episódio ir ao ar, Franklin Graham, pastor e filho do famoso evangelista Billy Graham, postou a seguinte mensagem no Facebook:

Hoje à noite, a ABC está estreando uma versão nova e “madura” dos Muppets, dizendo cobrir uma variedade de tópicos, desde sexo até drogas e “relações entre espécies”, sem sujeitarem-se a qualquer limite. Me parece que todo o show esta sem limites. Hollywood parece estar em frenesi para assistir o quão baixo eles podem chegar em sua programação. Sua agenda promove o pecado para um público cada vez mais jovem. Aplaudo o grupo One Million Moms por estar falando e exortando os pais a recorrerem a ABC para tirar isso do ar. A Bíblia diz: “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal.” E isso vale para o Caco.

Apesar das palavras de milhões de mães “anti-Caco” e de Franklin Graham, o show continuou. Aquele discurso irritado (a “relação entre espécies” do Caco, um sapo, e da Miss Piggy, uma porca, está “promovendo” um desmoronamento das bases dos nossos valores ocidentais por causa do acasalamento entre animais aleatórios), vindo de alguém que nunca assistiu o programa, não foi o suficiente para que uma grande rede de TV retirasse um show que tinham gasto milhões em gravações e divulgação.

Vamos encarar os fatos: os boicotes da cultura pop-cristã não funcionam. Na maioria das vezes, “funcionar” não é o caso. A campanha de milhões de mães é apenas mais uma na longa lista de boicotes fracassados as empresas, realizados por grupos cristãos pelos mais diversos motivos.

BOICOTES NUNCA DÃO CERTO

Em 2012, o Starbucks foi uma das inúmeras companhias de alto nível que foram boicotadas (sem sucesso) por estreitarem laços ao apoio pelos casamentos do mesmo sexo. Até o momento a Starbucks, Heinz, Wells Fargo, Home Depot e outras companhias foram alvejadas por ativistas que em voz alta mandavam as empresas irem para outro lugar.

Em junho desse ano, o pastor Silas Malafaia convocou um boicote a marca O Boticário por lançarem uma campanha com apelo homosexual. Obviamente o debate gerou milhões de views para a campanha e milhares de comentários nas redes sociais, não resultando em absolutamente nada.

Anualmente, uma lista de “desobedientes” das redes de varejo é lançada por uma organização, incentivando os leitores a boicotarem os lugares que não empregam as terminologias exatas daquilo que eles consideram necessários para a realização de negócios nos Estados Unidos. Nesse ano, a PetSmart (uma rede americana de suprimentos para animais) conseguiu ficar aberta apesar de ter sido submetida a um boicote por não utilizar as palavras “Feliz Natal”.

Harry Potter, Disney, os Beatles e Martin Scorsese tem sido alvos de esforços organizados de alguns cristãos preocupados por sentirem que seus valores e crenças estavam sendo atacados pelas empresas privadas que, apesar dos equívocos, emitem as suas opiniões sem ao menos consultar aqueles grupos irados de cristãos ofendidos.

Ironicamente, na maior parte do tempo, quando um cristão famoso ou um grupo cristão organizam um boicote, o mesmo não é sobre violações trabalhistas, condições perigosas de trabalho, práticas empresariais antiéticas ou irresponsabilidade ambiental. Geralmente eles são feitos por causa de “ataques” (leia-se “tenho uma opinião diferente da sua“) relacionados a valores sociais ou crenças religiosas.

A razão pela qual estes “boicotes” raramente funcionam é porque eles nunca são sobre os princípios em primeiro lugar. Esses boicotes quase sempre são sobre arrogância.

EXIBICIONISMO CULTURAL

Assim como muitos consumidores, os cristãos são livres para apoiar quaisquer empresas que quiserem. Por quaisquer razões que desejarem. Não é estranho dizer que as pessoas farão negócios com empresas que partilham dos mesmos valores, opiniões ou idéias. Afinal de contas, é um mercado livre e um país livre. Porém a liberdade funciona nos dois sentidos.

É permitido que as pessoas tenham idéias que as outras pessoas não gostam.

Mas, frequentemente, os boicotes públicos não se referem a virar os holofotes sobre as empresas que fazem coisas que os outros não gostam. Elas são sobre pessoas agarrando os holofotes e girando-os para si mesmos. O boicote é simplesmente um megafone.

O problema desses boicotes (além de serem ineficazes) é que eles operam sob a noção de que as idéias de certas pessoas são superiores a de qualquer outro, sendo que esses não deviam sequer existir. Mesmo que seus valores e fé representem a verdade, esmagar as outras crenças não é uma maneira eficaz de entrar em um dialogo significativo.

ENGAJAR X REPRIMIR

O apóstolo Paulo demonstra uma maneira diferente de interagir com idéias e valores que nem sempre estarão de acordo com a cultura. Em vez de reprimi-la, devemos saber como nos envolver com ela.

No livro de Atos, Paulo está no centro cultural de Atenas. Ele estava “angustiado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos.” Paulo foi para uma reunião com líderes culturais e, em vez de admoesta-los por suas crenças e valores, os elogiou, usando sua própria cultura como um meio de envolvimento civil.

“Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO… O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas.”

Usando como exemplo uma das suas idéias culturais (mesmo não concordando com a idolatria), ele foi capaz de mostrar que eles O adoravam apesar de não o conhecerem, sem jogar a cultura deles no lixo, de uma maneira ponderada e graciosa.

Então, ele referenciou um dos seus próprios influenciadores, dizendo: “ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas… Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós. ‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.’ como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele’.”

Se Paulo tivesse marchado por Atenas, tentando conduzi-los para fora de seus negócios simplesmente por não concordar com aquilo que eles vendiam, ele teria perdido uma oportunidade de compartilhar suas próprias crenças.

Ele teria sido ignorado, ao invés de chamar as pessoas para amar e servir.

Devemos nos levantar contra a real injustiça. Os boicotes devem ser usados para chamar a atenção sobre os males reais da sociedade. Mas quando os cristãos organizam boicotes simplesmente porque as celebridades, programas de TV ou empresas fazem ou dizem algo que eles discordam, esses cristãos poderão enxergar como estão mais preocupados em se proteger do que se envolver com os outros.

Somos chamados a passar o resto de nossas vidas fazendo discípulos e não pra fechar as empresas dos outros simplesmente porque não comemoram me maneira efetiva o nosso feriado.

Os cristãos não devem ter medo de cultura. Eles devem ajudar a molda-la. É difícil fazer isso quando você está boicotando-a.

 

 

 

Texto adaptado e contextualizado. Original aqui.

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