O que Jesus beberia?

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A nova geração de cristãos está repensando o que a Bíblia realmente diz sobre o álcool. Mas ‘certo e errado’ é realmente a única questão?

D.L. Mayfield é uma ativista que vive na cidade de Portland, Oregon. Basicamente, a cidade é uma Meca de coquetéis e cervejas artesanais. Mas ela não bebe mais.

Ela não parou com o álcool por causa de uma igreja legalista ou porque ela lutava contra um vício.

Ela desistiu pelos seus vizinhos.

“Acredito que a convivência com o seu vizinho é um grande tema nas Escrituras”, diz Mayfield. “O que eu gentilmente tentei salientar é como muitos de nós temos relacionamentos apenas com pessoas que são como nós mesmos. Isso é um problema maior do que beber ou não beber.”

“Ler a Bíblia com pessoas que são diferentes de mim – alcoólatras, drogados, prostitutas, muçulmanos, crianças, pobres – tem sido um presente. Isto fez com que eu pensasse além de mim mesmo, me ajudando a considerar como as minhas ações podem beneficiar um bem comum.”

Para essa geração de jovens cristãos, ao contrário da geração anterior, beber pode ser o sinal de um cristianismo que não está em desacordo com a cultura em torno dela. E, francamente, isso não é estranho.

Não faz muito tempo, um estudo descobriu que o testemunho cristão e sua reputação pública estão em um declínio significativo, especialmente entre as pessoas dessa geração. Apenas 16% disseram que tinham uma “boa impressão” dos cristãos, enquanto que 87% das pessoas tinham críticas com relação aos cristãos.

Combine essas percepções culturais com a crescente compreensão de que a Bíblia não apenas não condena mas também tolera o álcool, e a resposta será óbvia.

Beber não é apenas biblicamente aceitável, mas também pode ajuda-lo a ganhar credibilidade com a cultura ao seu redor. Porém, os especialistas e pastores enxergam essa questão de uma maneira mais complexa e ponderada.

A OSCILAÇÃO

Em uma tentativa bem intencionada de compensar uma era de intenso legalismo em diversas igrejas, muitos jovens cristãos olham para a cerveja como uma espécie de sacramento.

“Tenho um palpite de que parte dessa tendência seja uma oscilação”, diz Mayfield. “E parte dela representa a nossa falta de relacionamento que vão além das linhas de raça e classe.”

De acordo com Chris Cruz, pastor de jovens na Bethel Church em Redding, California, abordar o comportamento sem sondar o coração não é uma resposta saudável.

“As pessoas fugirão do legalismo e evitarão qualquer coisa que cheire a legalismo”, diz Chris. “Mas se não preenchermos o espaço do legalismo com uma vida governada pelo Espírito e a nossa verdadeira identidade, corremos o risco de abusar da liberdade.”

Com essa perspectiva de “vamos beber pois isso não prejudica o nosso testemunho”, podemos estar seguindo em direção à esse caminho de abuso da liberdade.

Curiosamente, o mesmo estudo citado no começo do artigo também revelou que os jovens cristãos se descreveram como pessoas mais tentadas (28%) em exagerar no álcool do que as pessoas de gerações anteriores – os mesmos antecessores cuja abstenção muitas vezes lhes deram uma má fama.

Clay Kirkland, ex-aluno da Universidade da Georgia, que agora agora trabalha como ministro em um campus universitário, viu isso acontecer por mais de duas décadas.

“Quando eu estava na escola, beber era algo que você definitivamente não devia fazer como cristão. A ideia era se separar dos pecadores o quanto fosse possível,” diz ele. “Atualmente, muitos cristãos julgam outros cristãos por não beberem e aqueles que o fazem agem como se não houvesse limitações quanto ao local onde você deve beber ou quanto você deve beber.

Assim como a terceira força de Newton, a força do legalismo coloca reações opostas em movimento e isso é o que vemos acontecer no panorama evangélico atual. Beber com discrição é o sintoma mais óbvio.

Jon Bloom, presidente do ministério Desiring God, diz que essa oscilação é um problema perene e também o sintoma de um problema muito mais profundo.

“Antigamente muitos cristãos tinham a tendência de confundir a abstenção com a justiça,” segundo Bloom. “Mas esse erro, baseando o nosso senso próprio de justiça relacionado ao nosso comportamento, em oposição a justiça imputada por Cristo, é cometido por cada geração à sua própria maneira.”

“Esse erro se veste com roupas mais atuais. Assim como as más tendências da moda, muitas vezes é mais fácil detectá-lo em retrospectiva do que em tempo real.”

Bloom está dizendo que, quando os cristãos atacam a geração mais antiga, mesmo que essa geração esteja errada, eles correm o risco de serem legalistas mais indiferentes.

Porém, isso não significa que os cristãos não devem fazer questionamentos e desafiar o status quo da cultura eclesiástica. Os crentes, segundo Bloom, precisam parar de reciclar as mentalidades insalubres e descobrir uma abordagem sobre a bebida que não apenas os protegem contra o abuso do álcool, mas também mostra o amor de Deus.

AMOR É A LEI

Os fariseus do Novo Testamento tinham uma formula de confiança: seguir regras, adquirir justiça e repetir o processo. E mesmo que muitos jovens cristãos pensem que esvaziar a mentalidade popular através do consumo de álcool seja a melhor coisa não-farisaica a se fazer, ela pode acabar chegando exatamente no mesmo lugar, segundo Kirkland.

“Os cristãos que se separam (da bebida) podem acreditar que isso é o que determina a sua santidade, enquanto os cristãos que se preocupam com as limitações com a bebida podem acreditar que cabe a eles determinar qual comportamento é o correto. Ambos erram, porque Jesus não trabalhou dessa maneira.”

Quando se trata de assuntos cinzentos, como o consumo do álcool, as Escrituras oferecem um punhado de versículos para nos guiar: não se embriague (Efésios 5.18); não deixe o álcool escravizá-lo (Tito 2.3); não seja desviado pelo álcool (Provérbios 20.1); não beba se não for adequado (1 Coríntios 10.23).

Porém, a lei que articula todos esses versículos é o amor.

Quando os fariseus, famintos por leis, perguntaram a Jesus sobre a regra mais importante, a sua resposta os desarmou:

Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro mandamento. E o segundo é semelhante à ele: Ame o seu próximo como a si mesmo. (Mateus 22.36-39)

Se abster e beber podem estar culturalmente em conflito, mas suas causas são as mesmas – assim como os seus antídotos.

Para os cristãos que desejam viver a sua fé em público, o ensino cristão diz que o lugar para começar é o amor.

CONTEXTUALIZANDO O AMOR AO PRÓXIMO

Apesar de sua natureza controversa, a missão envolvendo álcool tem sido historicamente eficaz. Porém, os efeitos são mais eficazes quando aplicados pelo amor e caridade.

O historiador David Underdown, em seu livro Fire From Heaven: Life in an English Town in the Seventeenth Century, conta a história de como alguns puritanos de Dorchester abriram uma cervejaria para ajudar os pobres, doando os rendimentos das vendas de cerveja apara fornecer roupas, comida e educação para as crianças. Seus esforços em mudar a cultura foram de grande sucesso dentro de seu contexto.

Três séculos depois, os cristãos precisam fazer a seguinte pergunta: uma abordagem “frouxa” ou “vaga” em relação ao álcool realmente ajuda e o que essa abordagem poderia prejudicar?

“Pessoalmente, nunca me identifiquei com a crença de que beber pode ser um grande construtor de comunidades,” diz Mayfield. “Honestamente, isso parece ser verdade somente para uma população bem específica: a geração do milênio de classe média alta, com pessoas que possivelmente foram feridas por uma educação fundamentalista. Desde que não seja a minha comunidade e as pessoas não sejam meus vizinhos, beber não é uma forma de me fazer enxergar o reino de Deus. Eu prefiro muito mais estar falando sobre a injustiça sistêmica do que sobre cerveja.”

Bloom também incentiva discrição no uso do álcool perto de outras pessoas. Antes de usarem a bandeira da liberdade, seria aconselhável que os cristãos analisem seus corações e examinem o seu contexto.

“Supondo que a sua consciência esteja limpa diante de Deus, precisamos perguntar: qual a melhor maneira de nos aproximar daqueles que estamos tentando alcançar com o Evangelho?”

As estatísticas que tratam dos nossos questionamentos sobre o álcool em nosso contexto são moderadas. Existe um crescimento exponencial de pessoas com transtornos causados pelo álcool e a morte de pessoas por conta do álcool tem sido uma das principais causas de morte evitável, superando Aids, tuberculose e violência juntos!

Isso nos leva ao fato preocupante de que o consumo de álcool para os cristãos, em muitos aspectos, pode ser tanto prejudicial quanto útil.

SACRIFICANDO A LIBERDADE POR AMOR

Para Cruz, a bandeira da liberdade apenas representa a verdadeira liberdade quando ela é governada pelo amor.

“O verdadeiro amor decide sacrificar suas liberdades em favor do próximo. Até que você esteja disposto a fazer isso com a bebida, ela terá poder sobre você. É arrogância reivindicar que a nossa liberdade individual deve sempre triunfar sobre o nosso próximo.”

Os cristãos são livres para beber e eles também são livres para o contrário. Quais são os fatores decisivos? Bem, ter um gosto ou não por bebidas certamente desempenha um papel sobre isso. Mas o principal é manter o objetivo em mente: amar sabiamente o nosso próximo como Jesus amou.

Quando Mayfield estava morando em um apartamento próximo do centro de recuperação de alcoólicos e viciados em drogas, a escolha foi fácil para ela. E agora que a sua comunidade está um pouco diferente, seus hábitos de consumo têm acompanhado essas mudanças.

“Bebi uma vez ou outra no ano passado, principalmente porque voltamos à Portland e a maioria das minhas amizades são com refugiados que não possuem problemas de uso de substâncias,” ela diz.

Os cristãos podem escolher ser a favor ou contra o álcool, porém tudo deve depender de seus contextos únicos. Beber as vezes pode ser útil, assim como também pode não ser.

“Não existem obrigações quando falamos sobre viver como um missionário. Somos missionários quando autenticamente seguimos à Jesus.”

 

Traduzido e Adaptado por Gustavo Neves. Original aqui.

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