O “politicamente correto” está ferindo a Igreja?

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O politicamente correto está assaltando as nossas mentes. Numa época em que defender causas sociais e nobres está na moda, pega mal dizer a respeito de determinados posicionamentos. Assuntos recentes relacionados ao casamento gay, cotas universitárias e redução da maioridade penal têm suscitado discussões acaloradas diante de opiniões contrárias ao que a sociedade acredita como correto. E a Igreja? Como ela se comporta diante de tais assuntos? Tem buscado ser simpática ao mundo (sendo politicamente correto) ou ser agradável ao Senhor (sendo biblicamente correta)? Neste artigo, veremos a importância de termos um posicionamento diferente do normal, diante dos debates que rondam o nosso tempo.

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Nos dias de hoje, parece que os cristãos devem escolher entre:

a) ser politicamente incorreto, adotando a postura de defesa de uma “verdade sem a graça” diante da cultura secular;
b) ser politicamente correto, adotando a postura de rendição de uma “graça sem a verdade” diante da cultura secular.

Não gosto de qualquer uma destas opções. A “verdade sem a graça” não é verdade. Pelo contrário, é uma agressão disfarçada de discernimento. E a “graça sem a verdade” não é agradável. Pelo contrário, é uma co-dependência disfarçada de amor.

Os perigos do politicamente correto

Jesus não prometeu a popularidade para aqueles que baseiam suas crenças e vidas em Seus ensinamentos. Ele prometeu o oposto. Além disso, Ele afirmou que se uma pessoa se envergonha Dele e de suas palavras diante de uma “geração adultera e pecadora”, Ele se envergonhará dela quando voltar na glória (Marcos 8.38).

Surpreendentemente, Jesus não é o único decepcionado quando mantemos a nossa fé em segredo. Algumas pessoas do meio secular ficam desapontadas quando evitamos as verdades contra-culturais com o intuito de nos proteger dos momentos socialmente vergonhosos.

O comediante ateu Jean Jillette disse que não respeita os religiosos não-proselitistas (obs: proselitismo, caso não saiba, é a ação de tentar converter uma ou várias pessoas em prol de uma causa, doutrina, ideologia ou religião). Jillette acredita que se nós, como cristãos, acreditamos possuir uma verdade boa e benéfica para todas os que estão ao redor, mas guardamos ela para nós mesmos, a nossa hesitação é um sinal do desprezo pelas pessoas que não queremos ofender. “Quanto você precisa odiar alguém para não ser proselitista?”

E se os nossos esforços em ser politicamente corretos falharem? E se, numa tentativa sincera de ser relevante para a cultura, não nos tornarmos produtos e discípulos dela? E se descobríssemos que os céticos nos levariam mais a sério diante de um ponto de vista mais sincero e aberto, ao contrário do posicionamento reservado e tímido sobre eles, que nos tornariam mais expressivos em relação as verdades que carregamos dentro de nós? É algo à se pensar.

Os perigos do politicamente incorreto

O histórico ensino cristão – especialmente em questões controversas como a sexualidade, a exclusividade, a sacralidade da vida humana, a generosidade ou a crença sobre a vida após a morte – nem sempre foi popular. Ainda assim, a Bíblia não mostra interesse em ser popular ou politicamente correto. Ela não permite ser adaptada, revisada ou censurada com o intuito de alinhar-se ao consenso popular.

Ironicamente, a única coisa que faz com que as Escrituras sejam relevantes para a nossa cultura (e para qualquer cultura) é o fato de que as Escrituras não mostram qualquer interesse em serem relevantes. Em vez disso, ela age como Deus falando e afirmando sobre aquilo que é necessário ser confrontado. Naquilo que existe desacordo entre a escritura e a cultura, os cristãos precisam ser contraculturais.

Porém, não devemos permitir que a nossa postura contracultural se torne anticultural.

Enxergar-se como minoria pode facilmente seduzir os cristãos a ficarem irritados, até mesmo hostis, diante de um mundo que somos chamados a amar. Como reacionários, podemos rapidamente assumir uma postura agressiva/desafiadora de pessoas politicamente incorretas. E isso nos tornaria fariseus.

O instinto farisaísta baseava-se em se separar do mundo. Mas os cristãos, constrangidos pelo amor de Cristo, devem estender a bondade e a amizade para aqueles que discordam de nós. Os cristãos, compelidos pelo amor de Cristo, não devem apenas ser o melhor tipo de amigo. Devemos nos tornar os melhores tipos de inimigos: perdoando quando feridos, abençoando e orando por aqueles que nos ridicularizam ou dizem falsidades sobre nós, recusando a ficarem presos em uma cultura de revolta.

Em si, isto é contracultural em um mundo onde, como foi dito pelo ex-presidente Bill Clinton, a intolerância é o desejo de não ter por perto aqueles que discordam de nós.

Mas os cristãos – por causa da fé e não apesar dela – têm a oportunidade de se destacarem como uma minoria amorosa. Isto significa permanecer fiel às Escrituras ao mesmo tempo que estamos, de maneira genuína, amando, ouvindo e servindo aqueles que não compartilham de nossa fé. Jesus, que acolheu e comeu com todo tipo de gente, nos chama a seguir seus passos.

Uma nação exemplar

Lembre-se que a “verdade sem a graça” não é verdade e que a “graça sem a verdade” não é agradável. Por esta razão, nem sempre o politicamente correto ou o politicamente incorreto funcionam. Precisamos de outro caminho. E se os cristãos se tonarem uma “nação exemplar” em meio as cidades, detendo a opinião da minoria? E se esse ponto de vista fosse conhecido, tanto pra religiosos quanto para seculares, como a mais vital dos pontos de vista?

Existem alguns sinais encorajadores. Na verdade, elas estão presentes o tempo todo.

C.S. Lewis disse que, se lermos a história, logo descobriremos que aqueles que mais contribuíram para o mundo atual foram os que mais pensavam no mundo porvir. Ser espiritual é ser alguém melhor e não pior.

Os cristãos tem mostrando uma liderança inovadora nas ciências (Pascal, Copérnico, Newton, Galileu, Koop, Collins), nas artes e literatura (Rembrandt, Beethoven, Dostoevsky, T.S. Eliot, Tolkein, Fujimura, Cash, Dylan, Bono), na educação (as melhores universidades dos EUA foram fundadas por cristãos), na misericórdia e justiça (Wilberforce e Lincoln na abolição da escravidão, Mueller na assistência a órfãos e muitos outros).

Inclusive os observadores contemporâneos percebem como a fé cristã, em sua forma mais pura, gera vidas convincentes. Nicholas Kristof, escritor do New York Times e agnóstico declarado, escreveu sobre como os cristãos (em particular, os evangélicos) são os mais generosos ao serem abordados em assuntos relacionados a pobreza, doenças ou outras situações horríveis. Próximo de casa, o gestor de uma clínica de aborto disse a um membro da nossa igreja: “Independente se for ele ou ela, quero que o seu Deus seja o meu Deus”.

Não sei você, mas esse é o tipo de “nação exemplar” que eu desejo ser. Àquele que dá para o mundo cansado e cínico, uma razão que o leve a parar e refletir. E em seguida, começar a desejar que isto seja verdade.

 

Traduzido por Gustavo Neves. Original aqui.

 

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