O péssimo hábito de ignorar pessoas

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A História não consegue ser gentil com os fracos, os covardes e os que vacilam. Estas pessoas não são perdoadas por nós , mas são vistas como pessoa que não devem nem ser mencionadas, e quando o são , são citadas como exemplos a não serem seguidas. Esse geralmente é o perfil daqueles que ignoramos no nosso meio. A Bíblia tem um caso semelhante: 

Tomé foi uma destas pessoas. Perdendo talvez  apenas para Judas. Ele é o discípulo que quase sempre é lembrado por ser aquele que não creu na ressureição de Cristo.

A história é familiar. Os discípulos estavam reunidos, chorando e lamentando  depois da morte de Jesus, quando de repente, Cristo aparece. Mas Tomé não estava na ali . Quando finalmente o discípulo resolve dar o ar da graça, seus amigos contam que Jesus apareceu e que Ele estava vivo. Todos nós sabemos o que aconteceu em seguida. Tomé duvidou e até hoje usamos a expressão “preciso ver para crer”.

Qualquer pregação que você ouça sobre Tomé ressalta a incredulidade do discípulo. Apedrejamos Tomé, e qualquer pessoa que tenha um pouco menos de fé do que a nossa. Vestimos nossa roupa de santidade e  exortamos : “não seja como Tomé!”. Tomé virou o exemplo para falta de fé. 

O que me chama mais a atenção neste relato, não é a incredulidade de Tomé. Não mesmo. Mas quando leio este relato, simplesmente me pergunto : ” Onde estava Tomé?”. ” O que Tomé estava fazendo que não estava reunido com seu grupo de amigos?”. Os discípulos estavam juntos, todos tiveram uma grande perda, estavam tristes, seu Messias tinha morrido. E onde estava Tomé?

Agora a questão maior é: além de Tomé não estar presente, como os discípulos não perceberam isto? Não sei o que Tomé estava fazendo, mas fico me perguntando, porquê ninguém foi atrás dele?

Veja bem, os discípulos conviveram durante três anos, eles eram íntimos. Conviver durante três anos com qualquer pessoa faz com que você a conheça. Eles eram um grupo. Estavam juntos a maior parte do tempo. Ouviram e aprenderam das mesmas coisas. Três anos! E naquele momento de dor e luto, Tomé não estava ali. E ninguém foi buscá-lo ou saber como ele estava.

A Bíblia não relata se alguém perguntou sobre Tomé ou se preocupou com ele. Tomé estava ferido e longe do grupo. E quando Jesus aparece ele não está ali. Perde uma experiência, talvez a maior experiência que os discípulos tiveram até então: ver o Cristo ressurrecto. Suas esperanças voltaram! A alegria voltou. Eles se sentiram vivos novamente.

Mas então, Tomé volta, e sabe o que os discípulos falam?

– “Tomé, por onde você andou? Estávamos preocupados com você. Pedro saiu agora pouco correndo, te procurando, para saber se você estava bem. Você precisa de algo? Me de um abraço. Preciso te contar algo que vá alegrar o seu coração.”

 Você leu isto na Bíblia? Não, nem eu.

Ao contrário, o que lemos são os discípulos falando: ” Olha,  Jesus esteve aqui, e sinto muito, você perdeu.” (parafraseando o versículo original). 

E aí julgamos, Tomé. É nesta hora que eu e você falamos : ” seu incrédulo”. ” Tá vendo , Tomé? Não seja como ele.” E continuamos : ” Sabe aquele irmão, não vem mais na igreja, mas está indo para as baladas.” ” Sabe fulana? Nem te conto, não vem mais na escola dominical”. ” Sabe o beltrano? Já fazem dois domingos que não vem na igreja, depois vai reclamar quando as coisas começam a dar errado.”

Julgamos, condenamos e quando o irmão aparece, falamos : ” você perdeu aquela vigília, foi benção pura”. 

Vivemos em uma época de relacionamentos superficiais e a Igreja não está longe disto. Tomé fazia parte do grupo, mas em seu momento de dor, onde ele precisava do grupo, o grupo não estava presente para ele. Somos tão parecidos, não? 

Quando foi a última vez que você se importou com alguém que está distante? Que não vem mais aos cultos como vinha antes? Quando foi a última fez que você se importou de verdade? É fácil pregar e falar sobre união e amor. Mas estamos amando realmente, ou só amamos quem nos interessa e faz a nossa vontade?

Jesus também passou pelo abandono do grupo. Quando estava próximo o momento da Sua crucificação,  Ele orou, chorou, implorou, Ele pediu aos discípulos para orarem por Ele. E o que aconteceu? Eles dormiram. Na hora em que Jesus mais precisava dos discípulos, eles estavam dormindo. O único momento em que Jesus pensa nele, ao invés de pensar no outro, o que Ele recebe em troca? Três vezes Jesus pediu aos discípulos para se compadecer da sua dor e orarem por Ele e com Ele. Três vezes os discípulos foram pegos dormindo. Até que Jesus desiste e o restante da história já conhecemos.

Existem vários Tomés entre nós. São Tomés, não porque não creem na Palavra. Elas creem. Mas são pessoas  que estavam ou estão entre nós, mas que são completamente desprezadas ou ignoradas. São pessoas que estão sofrendo, e que se afastam, seja fisicamente, ou emocionalmente do grupo. Estão ali de corpo, mas você não percebe que elas não estão bem. São pessoas que desistem e vão embora. Outrora faziam parte do grupo, hoje nem falamos com elas. E nós permitimos que elas se afastem.

Tomé retornou. E fez o caminho de volta sozinho. Mas quantas destas pessoas retornam? Quantas destas pessoas estão perdidas em suas dores, precisando de um consolo, de um ombro amigo, de alguém para conversar e nós estamos dentro do Cenáculo, pensando em nós mesmos, na nossa espiritualidade, na nossa experiência com Jesus e não enxergamos que Tomé não está ali?

Termino está reflexão com uma frase:

” A Igreja, é o único exército que deixa seus soldados feridos para trás.”

 

Escrito por Débora Oliveira – Eu, psicóloga

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