O perigo do cristianismo partidário

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Cotas raciais. Redução da maioridade penal. Cura gay. Crise econômica. Programas governamentais. Impeachment.

Cada uma dessas questões, assim como inúmeras outras, compartilham de duas coisas em comum:

  1. Todas elas devem ser importantes para a Igreja;
  2. Dependendo do que você pensa sobre elas, você pode ser rotulado como de “esquerda” ou “direita”.

Situação ou Oposição. Petista ou Tucano. Petralha ou Coxinha. Para alguns cristãos, qualquer um desses rótulos podem ir contra aquilo que eles acham que um cristão deve acreditar.

DOIS MUNDO EM GUERRA

A democracia brasileira oferece algumas vantagens quando se trata de governança. Ela permite que as pessoas votem em candidatos, dando voz aos cidadãos. Ela capacita os líderes eleitos para que tomem decisões legislativas.

Porém, nenhum sistema é perfeito. No sistema que tem evoluído (ou que está regredindo) no Brasil, uma disputa tem ocorrido. Os dois principais partidos políticos brasileiros, PT e PSDB, estão constantemente em competição pelo poder e por votos. Ambos os partidos tentam se diferenciar uma da outra, ao invés de procurar um terreno em comum.

Seus objetivos são bem claros: quanto mais puderem demonizar o outro lado, mais eleitores em potencial eles podem trazer para o partido.

Assim sendo, os líderes desses partidos raramente concordam em questões políticas. E, frequentemente, ao mesmo tempo que uma parte se liga a uma determinada posição, a outra assume lado oposto.

Claro, existem valores e ideias que informam as políticas de ambas as partes. Porém, tentar associar complexas questões sociais e econômicas à amplos rótulos ideológicos é algo problemático. Muitas questões não se encaixam perfeitamente em caixas ideológicas pré-ajustadas. Muitas vezes, esses rótulos desencorajam o dialogo profundo em favor do pensamento político.

E, para os cristãos, os riscos são especialmente elevados. Quando uma filiação política torna-se confundida com uma posição de fé, a mensagem do Evangelho pode misturar-se com a mensagem do partido.

AS OPINIÕES E SEUS NUANCES

Lance um comentário no Facebook sobre qualquer questão citado inicialmente e você terá uma boa chance de ser rotulado como um coxinha ou um petralha.

Mas por que isso precisa ser assim? Por que um comentário, sobre uma única questão, faz alguém achar que você concorda com todas as questões políticas associadas a esse partido?

Quando é que se tornou inaceitável pensar por si mesmo e formar suas próprias opiniões, ao invés de seguir a linha de pensamento de um determinado partido?

Graças ao sistema atual e dos ataques através das mensagens políticas, muitos brasileiros têm sofrido uma lavagem cerebral para que enxerguem todas as questões através de duas lentes: esquerda ou direita.

Isso é o que todos os partidos políticos querem, sejam eles de situação ou de oposição. Nosso sistema incentiva linhas claras de batalha e defesa política. Afinal, nas urnas, nós (em sua maior parte e especialmente em âmbito federal) não estamos votando por questões individuais: nós estamos votando em candidatos que representam um partido.

Mas essa tática pode nos enganar. Ela pode nos fazer acreditar que tudo o que lemos, vemos ou ouvimos falar sobre alguma questão social faz parte de uma agenda política oculta, tentando influenciar as nossas ideias.

A Igreja, porém, deve abordar as coisas de uma forma diferente. Os seguidores de Cristo não devem ver essas questões através da lente de “direita” ou “esquerda”. Nós devemos vê-las através das lentes do Evangelho.

A Igreja é o Corpo de Cristo. Ela é chamada a fazer a obra de Deus na Terra e não de um partido. Isso significa que precisamos olhar para cada questão individual com um discernimento bíblico, independentemente das implicações políticas.

ENCURRALANDO JESUS

Essa fusão entre filiação política e devoção religiosa não é nova. Na verdade, ela foi uma das primeiras armadilhas que os inimigos de Cristo tentaram usar contra ele.

Parte do motivo pela qual Jesus enfurecia as pessoas ao seu redor era porque Ele se recusava a fazer às suas vontades. Ele serviu a uma vocação maior do que qualquer homem ou instituição.

Os fariseus tentaram, segundo as palavras de Mateus, “enredá-lo em suas próprias palavras.” Eles perguntaram a Jesus, “É certo pagar imposto a César ou não?”

Eles fizeram essa pergunta tentando enganar Jesus, esperando que ele tomasse uma posição política volátil. Se Ele dissesse “não”, Ele estaria entrando em conflito contra a lei do Império Romano. Se ele dissesse “sim”, Ele poderia ser visto essencialmente como alguém que concordava em ajudar a financiar a opressão infligida sobre seu povo.

Mas, neste caso, Jesus sabia que não devia tomar uma posição política. Ele tinha a noção de que não estava sendo perguntado sobre uma questão. Ele estava sendo convidado a escolher um lado. Jesus era sábio o suficiente para não morder a isca.

Matheus escreve,

Mas Jesus, percebendo a má intenção deles, perguntou: “Hipócritas! Por que vocês estão me pondo à prova?
Mostrem-me a moeda usada para pagar o imposto”. Eles lhe mostraram um denário, e ele lhes perguntou: “De quem é esta imagem e esta inscrição? ”
“De César”, responderam eles. E ele lhes disse: “Então, dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Ao ouvirem isso, eles ficaram admirados; e, deixando-o, retiraram-se.

No julgamento antes de sua crucificação, Jesus foi levado perante Pilatos. Durante seu interrogatório, Pilatos parecia perplexo pois Jesus não indicava claramente qual era sua verdadeira agenda política. Foi difícil para o governador romano entender que a política não fazia parte da agenda real de Cristo. E aqui está o resultado:

“Você é o rei dos judeus? ”
Perguntou-lhe Jesus: “Essa pergunta é tua, ou outros te falaram a meu respeito? ”
Respondeu Pilatos: “Acaso sou judeu? Foram o seu povo e os chefes dos sacerdotes que entregaram você a mim. Que é que você fez? ”
Disse Jesus: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui”.
“Então, você é rei! “, disse Pilatos. Jesus respondeu: “Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem”.

Mesmo naquela época, a ideia de servir uma agenda maior do que qualquer agenda política parece estranha. Mas Jesus estava deixando uma coisa bem clara: o Seu Reino não era deste mundo. Sua mensagem não se encaixa em uma ideia política. E sinceramente, também nem precisa.

Suas Boas Novas não servem para promover políticos ou pessoas poderosas. Elas servem para promover a ideia de que o amor de Deus estende-se a todos, especialmente aos “menores” que não têm poder.

SERVINDO AO REINO

Não precisamos ter medo de nos envolver em política ou em discussões sobre questões políticas. Porém, enquanto formamos nossas opiniões e avaliações, não podemos ser escravos de um rótulo que faz a gente perder de vista algo que Jesus queria que a Sua Igreja não esquecesse: somos chamados a construir um Reino, mas esse Reino não é daqui.

Esse Reino não é desse mundo.

 

Traduzido e Adaptado por Gustavo Neves. Original aqui.

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