A narrativa bíblica e a série Stranger Things

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Quem cresceu na igreja está acostumado a ver a Bíblia como inspiração para pregações e músicas. Mas a sabedoria contida nesse livro sensacional vai além das aplicações religiosas. Existem sociedades que fundamentam suas constituição em princípios bíblicos e atualmente o mundo de Hollywood tem se inspirado bastante no “Storytelling” narrado pela Bíblia, tamanha a riqueza de detalhes, a complexidade na construção da história e o impacto que ela gera. A série Stranger Things é um dos exemplos que se inspiraram na Bíblia para a estruturação do roteiro. O intuito desse artigo é fazer um paralelo entre personagens e situações contextualizadas. Ah, e não, a série não é cristã (ou goxpel)  🙂

O teólogo e crítico social Peter Leithart diz que “o Diabo não têm histórias.” Em parte, ele fala sobre as histórias (não importa quão assustadora ou trágica ela seja) que tomam emprestado elementos de uma história mais profunda e verdadeira.

Durante os últimos meses, você provavelmente ouviu falar muito sobre a grande sensação da Netflix, a série Stranger Things. É uma série norte-americana de sucesso escrito pelos irmãos Duffer e estrelado por Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard e Millie Bobby Brown. Existe uma razão para que esse história tenha atraído tanta agitação e pareça interessar tantas pessoas, quer queiram ter percebido isso ou não.

Stranger Things nos lembra que a história de salvação de Deus é o modelo original para todas as histórias humanas. A série é cheia de metáforas, símbolos e referências veladas à história mais convincente do Universo, o Evangelho.

[AVISO: caso você não tenha assistido à serie, saiba que existem spoilers à frente!]

SÍMBOLOS OCULTOS

A protagonista da série é uma garota chamada Eleven. Ela é claramente uma figura de Cristo (inclusive o seu apelido, El, significa “Deus” em Hebraico). Ela possui uma história misteriosa sobre seu nascimento e seu pai verdadeiro nunca foi revelado, apesar de sua mãe ter feito uma breve aparição. Ela possui poderes telecinéticos aparentemente milagrosos. Enquanto ela estava em cativeiro, funcionários do governo americano “tentam” ela para que use seus poderes para matar um gato. Ela se recusa a matar, fazendo um paralelo com a tentação de Jesus no deserto (Mateus 4.1-11).

O mundo de Stranger Things se assemelha a compreensão cristã do nosso mundo. Ela possui duas dimensões interconectadas: a primeira é o mundo idílico da década de 1980 que, de tão cheio de nostalgia, quase que imediatamente faz com que os espectadores sejam transportados para um tempo mais simples. A segunda é o “Mundo de Cabeça para Baixo.” Ela é descrita como um mundo de morte. O ar é tóxico e cheio de monstros predadores (ou pelo menos um) que se alimentam de carne. Ele funciona como uma espécie de prisão para Will, um garoto trazido pelo monstro para o Mundo de Cabeça para Baixo.

Esse mundo recorda fortemente a compreensão cristã do nosso mundo: em um nível, o mundo é belo porque é criação de Deus; mas em outro, ele é terrível por causa do estado caído. Em seu livro The Doors of the Sea: Where Was God in the Tsunami?, o filósofo ortodoxo David Bentley Hart explica essa recordação da seguinte maneira:

O cristão deve ver duas realidades de uma só vez, um mundo dentro do outro: um é o mundo que todos nós conhecemos, em toda a sua beleza e terror, grandeza e tédio, prazer e angustia; e o outro é o mundo em sua primeira e última verdade, não simplesmente “natureza” mas “criação”, um infinito mar de glória radiante com a beleza de Deus em todas as partes, inocente de toda a violência. Enxergar desta forma é alegrar-se e chorar ao mesmo tempo, considerando o mundo como um espelho de infinita beleza, mas com o vislumbre através do véu da morte; é ver a criação aprisionada, mas bonita como no início do dia.

Quando El escapa do cativeiro do governo, ela encontra um grupo de perdedores adoráveis – tipo os doze discípulos, um grupo composto por aqueles que eram odiados (Mateus, o cobrador de impostos) ou tinham baixa estima (vulgo, pescadores). El ainda coloca as roupas da irmã de Mike, fazendo alusão, penso eu, à Encarnação (João 1.14a [NVI, veja Hebreus 2.14-15] indicando, “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”).

E isso não é tudo.

El falha em satisfazer as expectativas de seus amigos porque ela não salva Will do Mundo de Cabeça para Baixo do jeito que eles esperavam. Como imaginado, o grupo rejeita ela. Você não pode deixar de notar as semelhanças com a maneira como Jesus foi rejeitado pelos líderes religiosos por simplesmente não atender às suas expectativas messiânicas. El passa um tempo na floresta, onde ela é sustentada com waffles, uma alusão bastante clara ao maná enviado para Israel por Deus enquanto eles estavam no deserto, prefigurando a ideia de comunhão.

BATALHAS SOBRENATURAIS

Ao longo da série, vemos duas forças do mal. A primeira são as forças do governo caçando El. A segunda é o monstro sanguinário do Mundo de Cabeça para Baixo. Ele caça tanto seres humanos quanto animais, mostrando que o mal penetra a nossa realidade de maneira tão profunda que também fere o mundo natural. Ambas as forças são símbolos emblemáticos dos poderes e forças elementais.

Em uma cena marcante, El encontra o monstro através de sua habilidade telecinética. Deitada em posição de cruz dentro de uma piscina, ele “desce” em um abismo psíquico onde fica cara-a-cara com a morte e o monstro. Em um momento de medo, ela clama por Deus e a personagem de Winona Ryder responde, “eu estou aqui com você.”

É um belo momento que reflete a unidade do Pai e do Filho.

O xerife Hopper assume o papel de Judas. Fechando um acordo com o governo, ele divulga a localização de El. Na escuridão da noite e com armas em punho, eles vão até ela, que nem os soldados que foram até Jesus no Jardim do Getsêmani (Mateus 26.47-56). Seus amigos tentam defendê-la, sem sucesso.

Durante a série, El realiza milagrosos atos salvíficos que a levam sangrar pelo nariz. Isto prenuncia o final, onde El, sangrando como nunca, trava uma batalha contra a besta que insaciavelmente caçava seus amigos.

A fim de salvá-los da morte, ela entrega a sua própria vida (João 15.13). Somente através de seu sacrifício que ela pôde salvar aqueles que ela amava. Em 1 João 3.16, João resume o significado da morte de Cristo – uma penalidade paga em nome daquele Ele ama:

Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos.

VIDA APÓS A MORTE?

Assim como nos Evangelhos, a história de Stranger Things não termina simplesmente com a morte da protagonista. Na cena final (ALERTA: SPOILERS!!!!!), o xerife Hopper deixa waffles em uma caixa na floresta, implicando que El ainda está viva. E, acredite ou não, a caixa se parece com o Tabernáculo presente em igrejas católicas, onde eles armazenam a hóstia consagrada da Eucaristia.

Porque a hóstia representa o Corpo de Cristo, ela significa algumas coisas. Primeiro, Cristo continua vivo e presente entre nós. Segundo, absorver a hóstia é uma maneira pela qual a pessoa faz parte do Corpo de Cristo. E finalmente, lembra o comungante a olhar para o dia em que Cristo voltará em glória.

No final de Stranger Things, os espectadores ficam se perguntando se El retornará para os seus amigos – assim como nós, que estamos em Cristo, esperamos pelo dia que nosso salvador voltará.

 

Traduzido e Adaptado por Gustavo Neves. Original aqui.

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