O bem da confissão

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As pessoas encontram dificuldades de confessar seus pecados diante de Deus. Imagina diante dos outros.

A igreja primitiva sempre levou muito a serio a questão da confissão. Prova disso é o duro discurso de Paulo aos Coríntios sobre a pessoa que deveria ser afastada da comunidade se não assumisse o seu pecado e parasse de fazer o que estava fazendo (1 Coríntios 5.1-13). Tiago diz que os crentes devem confessar os pecados uns aos outros (Tiago 5.16a). Nesse caso, não é todo pecado cometido de forma privada ou individual que deve ser confessado de forma privada e individual, mas existem pecados que atingem pessoas ao nosso redor e cada um deles deve ser confessado diante dessas pessoas para que a unidade da igreja permaneça firme e pura.

Porém, tenho a impressão de que essa prática da igreja primitiva perdeu seu valor dentro da igreja contemporânea. Existe uma barreira dentro de nossas igrejas, criada por nós mesmos, que impede a confissão. Por um lado criamos um esfera falsa de santidade que nos auto-engana, querendo mostrar para os outros que não somos tão pecadores assim. Por outro lado temos aqueles que passam a mão sobre a definição e a destruição que o pecado promove em nós, são aqueles que fazem de conta que o pecado não é tão serio assim e por consequência não vivem ou ensinam uma vida de temor e obediência a Deus.

Não pensamos igual ao catolicismo, afinal, todos temos livre acesso a Deus (Efésios 3.11,12) e por isso podemos nos confessar sem um “meio-campo” que é chamado de padre. Mas mesmo sem a necessidade do confessionário, a Palavra fala sobre uma confissão que envolve outras pessoas e sobretudo o bem que ela promove.

Confessar liberta

Você assim como eu, tem aquele pecado “chiclete” – não desgruda. Você já leu livro sobre isso, já pediu perdão diante de Deus, já fez jejum, já fez promessa, contou os dias que permaneceu firme até que…voltou a estaca zero e fez tudo de novo. Esse ciclo é vicioso.

Talvez uma coisa que você não tenha feito ainda foi confessar esse pecado para alguém que você confia. Alguém que você tem liberdade e sabe que não será ridicularizado ou demonizado. Alguém que não irá menosprezar a realidade dura do problema, mas que lidará biblicamente e lutará até que você seja curado. Davi, o homem segundo o coração de Deus pecou, e não apenas isso, demorou para reconhecer e confessar seu pecado. Mas um profeta de Deus foi usado para que ele assumisse a culpa e pedisse perdão diante de Deus (2 Samuel 12.1-16). Deus coloca pessoas em nossas vidas para nos confrontar com o propósito de nos libertar e santificar.

Eu creio que a confissão uns aos outros pode sim ser uma ferramenta de ajuda com certos pecados. Esse é o próximo ponto que gostaria de destacar.

Confessar cura

Não é confissão para alguém que nos cura ou nos liberta de um pecado. Quem faz isso é Deus, é o Espírito Santo. Mas a confissão para o meu próximo mostra que somos farinha do mesmo saco. Quando sabemos que somos iguais aos outros, falhos e impotentes, pecadores miseráveis nosso senso de vergonha é colocado no lugar, a realidade não pode ser mascarada. Ao saber que outra pessoa enfrenta ou já enfrentou o mesmo problema que eu, isso pode ser como um poço de água no deserto. Não é uma miragem é uma oportunidade de refrigério.

Você não está sozinho nessa jornada e agora pode lutar junto com alguém. Lutar sozinho é lutar sabendo que a derrota pode demorar, mas é inevitável. Nós fomos feitos para viver em comunidade e essa comunidade não é só para festejar e se alegrar, mas é pra sofrer e chorar (Romanos 12.15). Para confessar e perdoar, para crescer e amadurecer.

Na comunidade de cristãos, a confissão é tão importante quanto qualquer outra coisa. Porque ela nos mantém humildes reconhecendo que todos nós precisamos da graça e da misericórdia de Deus. Como é feliz aquele que tem seus pecados perdoados (Salmo 32.1).

Por que nós não provamos mais dessa alegria que a cruz de Cristo nos proporciona em comunidade? Por que não nos alegramos uns com os outros quando nos libertamos de um pecado? Lucas diz que a igreja primitiva tinha tudo em comum, creio que a confissão também fazia parte disso (Atos 2.44).

Confessar encoraja

Certa vez ouvi a história de que um aluno, durante uma aula no seminário, pediu a palavra e começou a confessar um pecado diante de toda classe. Dirigido pelo Espírito Santo, logo que terminou de falar, foi acompanhado pela classe inteira, um após o outro abrindo o seu coração, confessando suas lutas. Todos choraram e oraram juntos a Deus. Não tenho dúvida de que a glória de Deus invadiu aquele lugar de tal maneira que lágrimas de pecadores tornaram-se pranto de alegria pela confissão e perdão de pecados. A confissão gera encorajamento, a vergonha vai embora e o medo se vai. Assim a comunidade cresce em graça, em pureza e em unidade.

Não existe ninguém mais santo que ninguém, o que existe é a certeza de que ainda pecadores ao confessarmos nossos pecados uns os outros mostramos quem de fato somos e que juntos precisamos da graça de Deus, do amor e da correção que molda nossa caráter.

Talvez o maior problema de confessar um ao outro seja o temor a homens, a vergonha, o medo de ser ignorado ou de perder o status de santo da igreja.

Só quem provou da confissão genuína com outra pessoa sabe do bem que ela promove. A confissão também é um meio de glorificarmos a Deus, pois reconhecemos nossas falhas e ao mesmo tempo dependência e confiança de que ele nos perdoa e purifica (1 João 1.9).

Eu e você sabemos bem que esse processo não é uma coisa fácil. Não acho que iremos tornar a prática da confissão natural do dia pra noite, por isso algumas dicas podem nos ajudar: 1) procure desenvolver o hábito da confissão de todos os seus pecados diante de Deus; 2) seja humilde em reconhecer suas limitações e busque ajuda; 3) a confissão tem como propósito glorificar a Deus e nos moldar; 4) se você participa de um pequeno grupo incentive as pessoas a compartilharem também suas fraquezas com o propósito de promover a cura, o perdão e a santidade no grupo.

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