Entre panos e planos

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Eu nunca sonhei em trabalhar com moda. Filha de pais bancários, quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia prontamente: “Artista plástica!”, pro terror dos meus pais. Minha vontade era fazer arte mesmo: sujar as mãos, emocionar gente em exposições, trazer um pouco de cor pra essa vida que eu, ainda criança, achava tão sem graça.

Foi ai que aos 12 anos, tomada pelo desejo de adquirir algum talento, tentei me matricular em uma escola de artes pertinho de casa. Fui recebida com muitas risadas e ironia na recepção da escola. Eles nunca tinham recebido alguém tão novo e, pra minha tristeza, o professor de desenho artístico nunca aceitaria trabalhar com alguém menor de 16 anos. Minha única opção então era o curso de desenho de moda. Muito a contragosto, aceitei e fui a minha primeira aula. Provavelmente, eu era a única criança em um raio de 50 km ali, arrisco dizer até, que eu era a única pessoa que não gostasse de moda.

Mas, o tempo passa, né? E quase no meio do curso, tive meu primeiro contato com a matéria de história da moda. Aquilo, de repente, começou a fazer algum sentido pra mim. Não foi amor à primeira vista, nem a segunda, muito menos a terceira. Mas daquele dia em diante, foi amor. Depois que me formei em desenho, estudei em mais três cursos extracurriculares diferentes até passar no vestibular pra Design de Moda.

Admito que no começo, eu ainda tinha um medo daqueles devastadores da faculdade. Medo de me arrepender, medo de não ter talento pro negócio, medo de não emocionar ninguém, medo de não ser ninguém.

O que eu não sabia, é que o sonho mesmo – aquela parada que faz a gente estremecer por dentro – eu só iria descobrir naqueles quatro anos lá dentro da faculdade, imersa no processo de pesquisa, estudo e produção de moda. Passei pelos piores bocados naquele lugar que ao mesmo tempo, tanto me abençoou. Foi ali que eu aprendi o valor da vida pessoal, do amor manso, do temperamento ensinável e, acima de tudo, o valor da oração. Aos poucos, aquele meio que pra mim era tão indesejável, tão saturado de ego e tão incompreensível, começou a transformar o meu jeito de pensar. Ao invés de ver a moda como um oponente, comecei a enxergar nela o meu campo missionário, a minha vocação em exercício.

Eu quis sim, ser uma designer conhecida, ver minhas criações sendo aplaudidas por aí, meu nome nas revistas que eu admirava. O problema é que perseguir isso já não me satisfazia mais. Com um emprego dos sonhos, eu me via completamente vazia e irrelevante pra mim mesma e pros outros. Até que um dia, como num passe de mágica, me sussurraram no ouvido: “Larga esse emprego”. Eu nunca tinha pensado nisso, muito pelo contrário, eu sempre fui uma daquelas pessoas que só saía de um emprego se tivesse outro engatilhado. Tinha mania de me planejar. Mas aí, aprendi que os meus planos não valiam de nada quando se tratava dos planos que Deus tinha pra mim.

Quatro meses depois de desistir do emprego dos sonhos, eu conheci então as pessoas que mudariam a minha vida profissional. Hoje, eu trabalho em tempo integral como voluntária em uma aceleradora de negócios cristã – por sinal, a primeira do Brasil – que auxilia exclusivamente empresas cristãs com o sonho de transformar vidas através de sua vocação empreendedora. Lá dentro eu cuido dos projetos relacionados a moda. Eu sei que pode até parecer impossível, mas tem sim MUITA gente boa fazendo moda de qualidade pra gente que nem eu, gente com um sonho. E eu tô ali, ajudando a transformar esses sonhos em realidade.

 

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Hoje, a moda é minha paixão, aquilo que faz meu coração bater forte. Mas, a minha vocação é cuidar e amar pessoas. E isso, foi a moda que me ensinou. O meu sonho? Poder criar uma moda mais justa pra pessoas mais humanas. Moda que transforma, que toca o âmago dos outros, que dá aquele nó na garganta e que enche os olhos de lágrimas de alegria. E justo eu que queria tanto emocionar os outros com a minha arte, me vejo hoje completamente emocionada com a nova história que o maior designer de todos costurou pra mim. Deus é o designer, eu sou só uma coadjuvante em tudo que Ele faz nessa longa passarela que eu, gentilmente, chamo de vida.
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Esther Alvares é cristã, paulista e designer de moda formada pela FAAP de São Paulo. Atualmente é também seminarista no Seminário Teológico Servo de Cristo e membro da coordenação do movimento Vocare. Uma eterna sonhadora, de coração apaixonado e por vocação, líder de projeto na Bluefields Development, onde trabalha com grupos minoritários e marginalizados através da moda.
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