Como falar sobre as suas crenças religiosas (sem ser ignorante)

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Várias vezes por semana eu recebo pela Internet comentários de desconhecidos que discordam com as coisas que escrevo e, de acordo com vários deles, eu vou para o Inferno.

A maioria das pessoas ficaria ofendida com comentários ou declarações de outra pessoa a respeito de sua própria condenação pessoal ou, pelo menos, se sentiria ligeiramente insultada. Mas eu sempre recebo esta notícia com uma mistura bastante reconfortante de paz e gratidão. Em primeiro lugar, estou profundamente ciente de que a crença de alguém sobre o destino final da minha alma não tem nenhuma influência real sobre se eu realmente vou queimar para toda a eternidade. Em segundo lugar, se eles realmente acreditam nisso, sinto-me estranhamente grato por me alertarem sobre o assunto.

As pessoas me perguntam o tempo todo como eu posso interagir regularmente com pessoas fanáticas, cujas opiniões religiosas são tão diferentes das minhas (na verdade, eles costumam perguntar como eu consigo lidar com “aqueles idiotas ignorantes”). Embora nem sempre tenha êxito (o orgulho e o julgamento continuam a atrapalhar), eu faço um grande esforço para envolver as pessoas em debates de fé, de uma maneira que seja respeitosa e graciosa, para encorajar uma conversa sem o uso de discursos vulgares e ataques pessoais.

Aqui estão algumas ideias básicas com as quais eu luto para lembrar quando entro em uma discussão perigosa e caótica relacionada a religião:

As pessoas são o produto ou o resultado de suas histórias

As pessoas não nascem como um ateu, agnóstico ou crente. Nossa perspectiva de fé não é um download instantâneo que vem no sistema operacional.

Ao confrontar as ideias de uma pessoa e discutir sobre sua religião, procure conhecer sua história.

Todos que você conhece são formados por trajetórias individuais – a casa onde foram criados, seus amigos, as igrejas em que cresceram, os livros que leem, os professores que os inspiraram, suas experiências, as feridas que sofreram…

Tudo isso lentamente os molda e essa formação muito específica de uma pessoa resulta na versão exata dela. Independente se você pode ver ou saber, todo mundo tem uma história profunda que o representa, tanto em sua teologia quanto na forma como ela é expressa.

Da mesma forma, você também é um produto de sua história. Você foi criado pelo tempo e experiência, educação e relacionamentos, e estes, exclusivamente, formaram todos os seus “preconceitos” originais e os pontos cegos em seu próprio sistema de crenças. Lembre-se de lutar contra a tentação de enxergar as pessoas como caricaturas ou apenas representações bidimensionais de um argumento religioso.

A teologia é um lugar

O que acreditamos sobre a fé, Deus e a vida após a morte não é tão imutável quanto nós provavelmente gostaríamos que fosse. Pelo contrário, é um ponto sempre em movimento no espaço e no tempo. Você provavelmente acredita de forma bem diferente do que você acreditava há 10 anos, de maneira sutil e substancial. E daqui a 10 anos, o mesmo provavelmente será verdade. Desta forma, eu gosto de pensar na teologia como um lugar; como o local específico onde você está neste momento.

Isto é importante ao interagir com os outros, porque o ajuda a esclarecer as suas limitações e a lembrar do seu lugar. Quando se trata de questões de fé, você não pode forçar alguém a estar onde você está. Não é o seu trabalho ou o seu direito puxar alguém para a sua perspectiva de fé, fazê-los enxergar como você enxerga ou concordar com os dados que você estabeleceu em sua mente.

Sua responsabilidade é descrever abertamente a visão de onde você está e esperar que algo nisso seja útil, encorajador ou desafiador para as pessoas. Deixe que as pessoas saibam onde você está e peça-lhes para encontrá-lo lá.

Enquanto você fala sobre Deus e fé, resista à tentação de tentar mover (e convencer) as pessoas para qualquer lugar. Esse é o trabalho de Deus.

Estar certo é perigoso

Se afirmarmos ter uma fé profunda ou se estamos certos de que a fé é uma miragem inútil, criamos uma “verdade” que consideramos ser correta e cremos que somente nós somos capazes de resolver esse grande enigma.

Embora possamos ter breves lampejos de humildade, a maioria de nós passa os dias completamente enredados em seus próprios pensamentos. Queremos que nossa certeza seja vista como uma convicção profunda, mas é mais frequentemente usada como uma licença para ser um idiota. É o nosso senso absoluto de retidão que geralmente nos permite justificar o tratar as pessoas de forma terrível. É a linha tênue que tão facilmente cruzamos, entre o correto e o farisaísmo.

Quando você vê pessoas com comentários de ódio que, tão livremente, condenam e julgam, lembre-se que eles pensam que estão corretos. Muitas vezes, eles realmente acreditam que estão certos e que estão fazendo a coisa certa. Se são pessoas de fé, querem agradar a Deus, não querem ir para o inferno, e querem que eu saiba que pensam que eu estou correndo perigo de ir para lá.

Quando você estiver ardentemente defendendo a sua posição, qualquer que seja, lembre-se que há sempre uma chance (e uma muito boa) de que você pode não estar completamente certo.

Jesus mostrou misericórdia e bondade quando disse sobre seus malfeitores: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem.” Lembrando que até mesmo a fé destrutiva começa em um lugar bonito e sincero, o que não justifica o comportamento horrível de alguém em nome de Deus, mas exige um longo caminho ouvindo suas palavras com alguma compreensão.

Eu quero compartilhar minha perspectiva de fé com os outros sem ser ignorante. Eu caio e falho, e me esqueço dessas ideias diariamente, mas acordo todos os dias em busca delas novamente.

Enquanto fala sobre coisas que realmente importam pra você, você pode se lembrar que as pessoas realmente importam também.

Seja gentil e sinta-se encorajado.

Traduzido e Adaptado por Gabriele Neves. Link original aqui.

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