Como a vergonha nos destrói

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Quanto mais tempo eu sou um pastor, mais convencido fico de que cada pessoa, independentemente dela mesma ou da sua situação, está lutando uma batalha interior e possivelmente carregada de vergonha. Vergonha, um grande inimigo da graça de Deus e também o maior inibidor da verdade, da justiça e do amor humano, é algo que deve ser abordado. Se uma comunidade é disfuncional ela precisa se tornar funcional, saudável e solidária.

Vergonha – sentido terrível de que algo está profundamente errado com a gente. Ela nos mantém preocupados com nós mesmos e desatentos às necessidades dos outros. A vergonha falsamente nos diz que precisamos corrigir a nós mesmos antes de servir os outros. Ela nos diz que devemos buscar o nosso agir antes que possamos agir em nome dos pobres, dos solitários, dos oprimidos e dos marginalizados. Antes de podermos dar atenção e energia para pavimentar caminhos nesse mundo em desenvolvimento, é preciso primeiro desenvolver o nosso próprio senso de propósito.

“A caridade começa em casa”, dizemos a nós mesmos. “Se não cuidarmos de nós mesmos em primeiro lugar, então não seremos capazes de cuidar de forma eficaz dos outros. Se nós mesmos não nos mantemos saudáveis, seremos limitados em nossa capacidade de investir em causas importantes das pessoas a nossa volta.”

De certa forma, assumimos isso corretamente. Quando a vergonha de Adão e Eva foi exposta no jardim, ambos se voltaram imediatamente para si mesmos. Adão voltou sua atenção para longe de Deus e Eva foi em busca de folhas para se cobrir e esconder sua vergonha. O Homem e a Mulher buscaram a independência de Deus, perderam o interesse um no outro. Adão culpou Eva e a Deus. Eva culpou a serpente.

Desde o Éden, cada homem, mulher e criança tem enfrentado uma batalha, muitas vezes secreta e com o fardo da vergonha. A vaga sensação de que há algo profundamente errado com a gente nos obriga a esconder e nos culpar. Ficamos inquietos, voltados e comprometidos desesperadamente para alguma estratégia de auto-salvação. Nós trabalhamos duro para criar uma consciência que silencie a vergonha dentro de nós mesmos, para que ninguém nunca perceba ou descubra que existe algo errado conosco.

E se houvesse uma maneira desse ciclo da vergonha ser quebrada em nossas vidas? E se houvesse uma maneira de evitar às pressões que a cultura exerce, por exemplo para sermos ricos, bonitos ou bem respeitados? E se houvesse uma maneira para que a pressão fosse aliviada do realizar, alcançar e comparar, a fim de sermos pessoas com valor nesse mundo? E se nós já não sentirmos a necessidade de provar algo que valide nossa própria existência aos olhos do mundo e também aos nossos próprios olhos? E se a nossa batalha secreta contra a vergonha acabasse, nos libertando da necessidade de dirigir a nossa atenção para longe de nós mesmos e para com os outros que estão perto de nós, mas que também precisam da nossa ajuda e apoio?

Minha maior alegria como pastor cristão é que eu posso dizer que existe um remédio, existe cura para a vergonha. Quando Jesus permitiu ser despido, cuspido, insultado, rejeitado e sofreu em silêncio na cruz, o único que não tinha nada para se envergonhar, rendeu-se a cruel vergonha por nós. Por meio de tudo isso ele levou a nossa maior vergonha – o pecado. E o que ele fez na cruz é o que nos salva.

Porque Jesus levou sobre Si o nosso fardo cheio de vergonha, não temos mais que nos esgotar com esforços intermináveis ​​e inúteis para fazer algo para nós mesmos. Temos agora um recurso interno que nos liberta da preocupação com o ego. Temos agora um recurso interno que nos liberta para tratar todas as pessoas da mesma maneira e não nos sentindo superiores ou inferiores a elas.

Quando compreendemos que Jesus tomou sobre si a nossa vergonha e que por causa disso não temos nada a esconder, nada a temer e nada a provar, obtemos a consciência de que ninguém é diferente de ninguém. Todos passam por isso. Mas em Cristo Jesus, somos capazes de cooperar para que outras pessoas sejam libertas dos seus medos que são alicerçados na vergonha.

Não podemos jamais perder a consciência de que fomos criados a imagem de Deus, que por conta do pecado essa imagem foi rabiscada, sofreu consequências, mas a cruz de Jesus é o meio pela qual Deus revela o seu amor a nós e que Cristo Jesus é aquele que irá reconstruir o que foi perdido no Éden. E isso tudo diz respeito também a nossa vergonha. Não se esqueça, ele levou o nosso fardo e agora não há pressão sobre as nossas costas. O Evangelho é o poder que nos liberta do medo, do orgulho e também da vergonha. Graças a Deus por isso.

 

Traduzido e adaptado por Paulo Neitzke. Original aqui.

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