Quando tecnologia e propósito se encontram

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A Tecnologia ainda é uma assombração para a vida cristã, ao mesmo tempo que utilizamos para divulgar e desenvolver nossas igrejas, teologia e pensamentos, questionamos como ela tem nos afastado do modelo original da fé.

Especificamente dentro das igrejas, sempre que há um lançamento disruptivo ligado a tecnologia, ele passa por um processo de demonização, tal tecnologia sofre criticas e mais criticas e recebe o status de “arma do diabo para infiltrar a igreja”. A televisão passou por isso, a internet, smartphones, projetores de slides. Até a liderança perceber que vai ser impossível barrar a adesão de tal tecnologia por parte dos membros e então passa a utilizá-la para finalidades evangelísticas.

Existem dois fatores atrelados a isso, um engraçado e outro preocupante. O primeiro é que quando algo inovador, surge atrelamos primeiro a imagem do diabo, como se Deus só fosse capaz de prover os papéis para as cartas de Paulo. É uma linha de pensamento que acredita que só o Diabo trabalha para destruir a humanidade e que Deus apenas assiste tudo. Ou seja Deus assina a Netflix onde o diabo posta suas séries. Pára né! O Segundo fator é que em todo esse processo perdemos algo muito precioso: o tempo!

O tempo que gastamos criticando uma inovação nos coloca na posição retardatária, isso nos impede de desenvolver funcionalidades específicas para o reino. E  então quando começamos a brincar a única coisa que conseguimos fazer é copiar algo que empresas já utilizam e adaptar (de modo bem porco) para a realidade da Igreja.

Obviamente existem exceções, e é sobre isso que quero falar nesse post.

Programando para o reino

Code for the kingdom (ou code 4 the kingdom para os geeks) é uma maratona hacker que acontece em diversas cidades dos Estados Unidos e reúne diversos programadores e profissionais de tecnologia cristãos para desenvolverem, em um curto período de tempo (em média 48h), soluções baseadas em 3 categorias:

  • Formação Espiritual como tecnologia auxilia mudança de comportamento. Esta categoria tem forte sobreposição com informática pessoal e tecnologias para os indivíduos.
  • Ministérios mais fortes e saudáveis: essa categoria é focada em apoiar comunidades e instituições cristãs. Pensando em como a tecnologia pode organizar, engajar e captar recurso para elas.
  • Justiça Social:  é o categoria é menos fácil de distinguir, mais seria algo mais focado para o bem comum, ligada a instituições de caridade e ativismo.

 

Seguindo os moldes dos tradicionais hackathons, os desenvolvedores se dividem em equipes para desenvolverem suas ideias, as melhores  equipes recebem premiações em dinheiro, que variam de $500 a $100.000.

A Code for the Kingdom já realizou mais de 30 eventos. Seatle, Nairabi, Dallas, Atlanta, São Francisco, Londres são algumas dascidades que já receberam a maratona. A Microsoft também abriu as portas para sediar o evento envolvendo seus funcionários e atrelando sua causa ao tema principal do evento. Ainda esse ano terá uma edição na famosa Palo Alto dentro da universidade de Berkley!

Durante o evento, além do periodo dedicado a criação e execução dos projetos, os participantes contam com palestras, momento de oração e adoração, refeições e mentorias. Aliás, antes de começarem a programar, todos os envolvidos se reúnem para uma oração a fim de buscar auxílio e orientação de Deus para que seus projetos sejam instrumentos para levar o cristianismo através da tecnologia.

 

Projetos que já surgiram

Ao longo dos vários eventos já realizados, ideias super diversas foram se desenvolvendo, reuno abaixo alguns dos projetos que surgiram durante as maratonas:

Free As me // categoria: Justiça Social

É um aplicativo que ajuda as pessoas a enviarem dicas para polícia sobre tráfico humano, inspirado pelo trabalho da Missão Internacional de Justiça para informar e apoiar batidas policiais em todo o mundo. O aplicativo usa dados de GPS, fotos e gravações de áudio para enviar relatórios diretamente para as pessoas que poderiam responder legalmente.

Abide  // categoria: formação Espiritual

É um aplicativo com foco em oração, ele te lembra ao longo do dia momentos de oração e ativa um “modo de oração (tipo modo de avião sabe?) para que  você não seja interrompido por notificações enquanto se concentra na atividade espiritual.

Upotia // categoria: Justiça Social

É uma rede social para os cristãos, igrejas e associações de igrejas. O projeto já conta com uma equipe de 20 pessoas para construí-lo e conectar indivíduos dentro e através destas redes. Aos poucos eles tem acrescentado várias funcionalidades, entre elas um recurso para pastores compartilharem sermões uns com os outros.

Scriptive //categoria: formação Espiritual

É um mapeador de humor, nesse aplicativo você indica como está seu humor e as causas atreladas e isso e ele te sugere passagens bíblicas para leitura relacionadas ao seu humor ao longo do dia.

Ikos // categoria: Justiça Social

Foi construído em resposta a um pedido do local, Gates Foundation apoiado VisionHouse para um aplicativo móvel que iria agilizar o processo de solicitação de habitação e outros serviços sociais.

Imagem: Timnations

Um novo mindset

Embora os projetos que surjem desses eventos sejam super bacanas e funcionais, acredito que a maior contribuição da code 4 the kingdom está atrelada a percepção, excelência e “ecossistema do reino”.

Percepção sobre como profissionais e empresas ligadas a tecnologia enxergam esses profissionais cristãos, utilizando seus dons e talentos para a dissimir uma causa, ao contrário da maioria das startups e empreendedores que primeiro focam em enriquecer rápido para depois encontrarem uma causa para defender.

Excelência, acredito que após a reforma protestante, como qualquer revolução ganhamos de um lado, mas perdemos de outro, ganhamos muito com o esclarecimento teólogico e clareza no relacionamento com Deus, mas por outro excluímos diversas formas e áreas para adoração a Deus, valorizando apenas a pregação da palavra e o louvor. Colocamos a arte, a arquitetura, a ciência como profanos ao invés de direcioná-las para glorificar ao Criador de TODAS AS COISAS, isso nos colocou em uma posição retardatária a ponto de nos contentarmos com qualquer coisa, mascarando a preguiça, o mal feito como uma falsa humildade de espírito. Quando movimentos como o code for the kingdom surgem eles nos colocam na dianteira e influenciam cada vez mais comunidades a assumir o protagonismo essencial para aqueles que se dizem cristãos, não só para partilharem da Glória, mas da causa de Cristo.

Ecossistema de reino, nada existe e nem se mantém sozinho, ao iniciarem essas maratonas diversas áreas e comunidades resolveram se engajar, a ponte de criar ventures capitals formadas por grandes igrejas e investidores cristãos para levantarem recursos para o desenvolvimento dos projetos que surgem na code for the kingdom. É mais ou menos aquela história de 12, que depois viram 72, depois 3 mil, depois 2 milhões, sabe?

Fico extremamente feliz por fazer parte de uma geração que tem utilizado de todos os recursos possíveis a favor da causa de Cristo, sabemos que existem diversas situações, pessoas e igrejas que não tem vivido o verdadeiro evangelho nos dias de hoje, mas ver grupos assim e tantos outros que tem carregado a cruz de cabeça erguida me faz perceber que temos mais motivos para nos orgulharmos do que para nos envergonharmos. É bom saber que através do digital também é possível levar uma fé real.

 

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