A ira de Jesus não justifica os seus pitis na Internet

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Acesse o Facebook e leia algumas das postagens que envolvem os cristãos. Pode ser que você se depare com algo assim: alguém postando um comentário irado, usando a história de Jesus “limpando o templo” como um desculpa para o linguajar desnecessariamente forte.

O comentário desse cara fará referência a um Jesus armado de um chicote, virando mesas, forçando a remoção dos cambistas, empregando uma ira justa para corrigir a injustiça.

Muitas vezes, essa história se torna uma desculpa para pessoas ficarem com raiva e postarem coisas envolvendo questões políticas divisivas, teologia controversa ou questões sociais.

“Me desculpe se esse comentário sobre… [escolha o assunto] …não seja ‘legal’. Jesus não era exatamente alguém agradável e nem agradou todo mundo, que nem quando ele chutou todo mundo para fora do templo e lançou as mesas pra longe”, é o que o comentário dirá.

A história de Jesus expulsando os cambistas aparece várias vezes nos Evangelhos, incluindo um relato detalhado em João 2:

No pátio do templo viu alguns vendendo bois, ovelhas e pombas, e outros assentados diante de mesas, trocando dinheiro.
Então ele fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas e virou as suas mesas.
Aos que vendiam pombas disse: “Tirem estas coisas daqui! Parem de fazer da casa de meu Pai um mercado! ” (João 2.14-16)

É uma imagem chocante: um Jesus violento, pessoalmente expulsando as pessoas que abusam da Igreja que Ele ama e protege.

Essas pessoas não estão erradas ao dizerem que Jesus estava mostrando uma ira justa com o intuito de evitar que tirem vantagem de outras pessoas em nome de Deus. Na história, Jesus está zangado e claramente irado.

Mas é por essa razão que devemos usar essa história como uma desculpa padrão para cada discurso inflamado: isso claramente estava fora da personalidade de Jesus.

Os Evangelhos pintam um retrato de um Jesus que é complexo e ao mesmo tempo consistente, praticando o tipo de comportamento que ele pregava. Ele disse que seus seguidores deviam amar os seus inimigos e seus vizinhos como a si mesmos. No Sermão da Montanha, Ele elogiou os pobres de espírito, os pacificadores, os misericordiosos e os mansos.

O Apóstolo Paulo destilou o fruto do Espírito que Jesus ensinou em “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio”, seguindo isso com essa linha, “Não sejamos presunçosos, provocando uns aos outros e tendo inveja uns dos outros.”

Jesus pegando um chicote e tacando para fora do templo aqueles que estavam usando-o para o lucro é uma história impactante, porque Jesus pregou a tomada da paz e não a luta. Ele pregou a paciência e a gentileza, não a raiva e a violência. Se ele estava tão zangado, é porque ficou claro que uma ofensa extremamente grave estava sendo cometido. O tipo de comportamento exibido por Jesus naquela tarde não é proibida para qualquer meio, mas essa reação não fazia parte da vida diária de Jesus.

A história continua sendo poderosa, porque ela é um exemplo de como devemos reservar esse tipo de reação para raras situações de extrema injustiça e não torná-la parte de nossas vidas regulares.

Ficar sempre na defensiva (ou simplesmente ter uma postura divisiva ou desagradável) nas mídias sociais não nos faz semelhantes à Cristo, mesmo se usarmos história de Jesus no templo como uma desculpa. O ministério de Jesus envolveu pouco chicote e mesas viradas. E a razão para essa tática ter sido eficaz é que ela foi reservada para uma situação extrema.

O Facebook tem permitido que as pessoas se envolvam e participem em assuntos de maneiras nunca antes previstas. E com toda a sua capacidade para o bem, conectando o mundo e os relacionamentos, ela também traz consigo alguns riscos específicos: as interações digitalizadas, destiladas em palavras digitadas e despreocupadas, podem acabar com a comunicação da humanidade.

De repente, o confronto deixa de ser desconfortável e passa a ser divertido. Uma reação forte deixa de ser uma ocorrência rara para situações raras e começa a se tornar uma parte padrão do dialogo. “Amar” o próximo na Internet deixa de ser algo importante. Pegar o chicote e virar a mesa se torna a norma.

Paramos de ser reconhecidos pelo amor e começamos a ser reconhecidos pela nossa raiva. E não é assim que fomos instruídos a viver.

A mensagem da salvação de Jesus ensinou maneiras de vida para os cristãos, assim como a Sua própria vida. Jesus era o Verbo que se fez carne. É por isso que usar uma única história, fora de seu contexto, para justificar o nosso próprio comportamento ruim é tão perigoso, pois corremos o risco de distorcer a mensagem que Cristo realmente ensinou.

Nossas vidas não devem ser definidas pela nossa raiva, não importa quão justa ela seja.

A história de Jesus purificando o templo mostra que estamos autorizados a ficar com raiva. Mas a vida de Cristo nos ensina que a raiva é a exceção, porque a paz é o padrão.

 

Traduzido e Adaptado por Gustavo Neves. Original aqui.

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