A gratidão e a nossa disciplina espiritual

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É quase impossível acreditar que Jesus cura 10 leprosos ao mesmo tempo em Lucas 17. Sem chamar atenção para si, ele simplesmente pede aos homens que foram curados, “Vão mostrar-se aos sacerdotes”. Enquanto eles seguiam seu caminho, iam sendo purificados.

Jesus certamente perdeu uma oportunidade de fazer um espetáculo para aquelas pessoas. A questão é que Deus nunca se preocupou com o engrandecimento ou com plateia. O que chamou sua atenção, no entanto, foi a falta de gratidão dos ex-leprosos. Apenas um dos homens que haviam sido curados voltou para agradecer a Deus pelo milagre recebido.

Apenas um.

Como a Bíblia registra, “Um deles, quando viu que estava curado, voltou, louvando a Deus em alta voz. Prostrou-se aos pés de Jesus e lhe agradeceu. Este era samaritano” (v. 15-16).

Jesus, ao ver que todos os outros haviam ido embora, fica chocado e pergunta, “Não foram purificados todos os dez? Onde estão os outros nove? Não se achou nenhum que voltasse e desse louvor a Deus, a não ser este estrangeiro? ”

O triste resultado foi que 90% dos homens curados perderam o momento em que Jesus daria o presente mais importante e valioso que eles poderiam ganhar em toda a vida. Jesus, então, se dirige ao único samaritano que demonstrou um coração grato e lhe diz, “Levanta-se e vá; a sua fé o salvou.”

A Bíblia não nos diz porque os outros leprosos não voltaram para louvar a Deus. No entanto, fica claro a partir da resposta de Jesus que a gratidão era a única resposta adequada para aquele milagre.

Gratidão: um caminho para Deus

Se praticada como uma disciplina espiritual, a gratidão realinha as nossas vidas ao Doador e aumenta Sua atividade em nossas vidas.

Mas como?

Aqui está uma sequência teológica que é fundamental para a compreensão de tudo isso: gratidão gera humildade, que abre os nossos olhos para a graça de Deus.

Vamos começar com a gratidão. A gratidão tem sido chamada de “porta de entrada” para a disciplina espiritual. Como está escrito no Salmo 100.4, “Entrem por suas portas com ações de graças e em seus átrios com louvor; deem-lhe graças e bendigam o seu nome.” Com gratidão, nós agradecemos a Deus não apenas pelas coisas materiais que enchem nossos bolsos, mas por Ele.

A gratidão gera humildade porque revela a nossa dependência de Deus. A humildade é uma condição do coração humano que reconhece que todas as bênçãos recebidas foram dadas por meio da graça e não por merecimento.

Ele entende como estamos distantes de um Deus tão Santo. Nós simplesmente não poderíamos chegar ao reino de Deus, sermos salvos ou mesmo amar a Deus, se Ele não tivesse nos amado primeiro.

De fato, nos tornamos humildes quando nos relacionamos com Deus, e isso permite que a graça de Deus seja vista em nossas vidas. Em Tiago está escrito que “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes” (4:6). Se dizemos que a graça de Deus é também o poder de Deus, então quanto mais somos gratos e reconhecemos nossa condição diante de Deus, mais poder recebemos.

Ao fazermos desse caminho (de gratidão, humildade e graça), um hábito, experimentamos mais da presença e do poder de Deus.

E como posso ser grato no sofrimento?

A gratidão flui facilmente nas nossas vidas quando conseguimos nosso emprego dos sonhos ou quando estamos perto de conseguir uma promoção. É fácil elevar a valorização pelas coisas do alto quando recebemos um aviso por “excesso de velocidade”. Mas e quando as coisas fogem do nosso controle e as situações não acontecem do jeito que queríamos? Ou o que dizer quando uma tragédia nos atinge? Ainda podemos ser gratos nessas situações?

De fato, a vida não é sempre um buffet de deliciosas circunstancias do qual podemos escolher quais itens colocamos no nosso prato. Muitas vezes, nos pegamos com um prato cheio de limões azedos.

É…

Felizmente, a gratidão cristã não pede que “peguemos nossos limões e façamos uma limonada” – como ensinam livros de autoajuda. Na verdade, Deus usa situações dolorosas para nos lapidar e moldar nosso caráter, o que não significa que temos apenas que sorrir e acenar, ignorando a dor e esperando que isso faça tudo ficar bem.

Uma teologia de gratidão que não permite a dor é, na melhor das hipóteses, equivocada e absurda. Você consegue imaginar um transeunte dizer a Jesus no Calvário “melhore essa cara”?

Aprender a lidar com as dificuldades da vida e os trágicos acontecimentos que nos chocam inesperadamente pode ser realmente difícil. Ter um coração grato, contudo, não tem a ver com olhar sempre o lado positivo das coisas e pensar “poderia ter sido pior”. A nossa gratidão não é baseada em um conjunto de circunstâncias. Ela é baseada em uma Pessoa.

A resposta para a nossa dor e sofrimento não está nas situações, mas no próprio Deus. Jesus veio, não apenas para sofrer por nós, mas para sofrer conosco. Isaías descreve Deus como tendo sido: “desprezado e rejeitado pelos homens, um homem com dores e experimentado no sofrimento” (53:3).

Jesus entende a nossa dor e não nos abandona por conta dela.

Praticar a gratidão consiste em descansar tranquilamente, confiando que Deus acabará com todas as situações ruins que passamos ou vamos passar, para sempre. “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Apocalipse 21:4)

Sua promessa nos encoraja “Alegrem-se sempre. Orem continuamente. Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus” (1 Tessalonicenses 5:16-18).

Sim, é muito fácil perder de vista as bênçãos que Deus nos dá quando a dor é esmagadora. Briguei com Deus muitas vezes em minha agonia. Mesmo assim, Deus nunca vai tirar aquilo que Ele nos deu. Ele é incrivelmente bom. Se eu estivesse no lugar de Jesus, por outro lado, eu provavelmente transformaria a cura dos nove leprosos em maldições desagradáveis. Ou então voltaria a deixá-los leprosos. Agora sim! Isso vai ensiná-los a serem gratos.

Mas era amor, não uma intimidação. Dizer “obrigado” sempre nos revela bênçãos invisíveis. Nós não controlamos ou mandamos no Doador, mas podemos sempre esperar por um presente: o poder da esperança.

Assistir o pôr do sol, sair para jantar com os amigos ou dormir em uma cama confortável são bênçãos que não merecemos. Praticando a gratidão, cada dia é uma caçada ao tesouro.

 

Traduzido e Adaptado por Maitê Leal. Original aqui.

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