A difícil despedida entre mãe e filha

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Na cultura cristã é muito comum a menina mulher só sair da casa dos pais quando casa. Mas ao longo do tempo isso tem mudado, muitas saem pra estudar, morar em outro país, trabalhar em outra cidade, sem necessariamente um casamento ou um relacionamento.

Porém a despedida entre mãe e filha continua dolorosa, independente do motivo.

Nossas mães sempre nos ensinam o que aprenderam com suas mães e com a vida, a fim de nos proteger da dor.

Muitas vezes nem concordamos na hora, mas é impossível esquecer um conselho de mãe (dá até um medo porque as vezes você não sabe se é conselho, se é praga, se é revelação..enfim)

O texto abaixo traduziu em palavras as emoções de uma despedida entre mãe e filha, um momento bem marcante na vida toda mulher. Mesmo que essa distância seja só de uma rua. É a mudança, é a responsabilidade, é deixar de ser a princesa do lar, para virar a dona do lar e assumir todas as consequências, mesmo sem ser recatada. É sobre crescimento, pressão, e um adeus a uma fase que não volta nunca mais… bem, no fim, é sobre a vida, né?

 


 

 

Mãe, eu preciso ir..

Mãe,

Talvez você demore a compreender, talvez você chore incontáveis noites por ver o ninho vazio, talvez você me ligue com aquela voz embargada, sofrida, de quem está guardando um mundo de saudade em um nó na garganta, mas mãe, eu tenho que ir.

Tenho que aprender a separar a roupa por cores na hora de lavar, tenho que descobrir que a louça continua na pia no dia seguinte, que cheiro de banheiro limpo é bom, principalmente quando fui eu que limpei.

Tenho que aprender a cozinhar mais coisas além de macarrão com salsicha, conto com a internet para me ajudar com isso. Tenho que aprender que o meu salário precisa durar 30 dias e que balada e cerveja não são lá as necessidades mais básicas.

Tenho que me sentir só, tenho que falar para as outras pessoas “minha mãe sempre diz que..” e sentir orgulho dos inúmeros conselhos que você me deu na vida e nem sempre eu dei muito valor. Tenho que identificar as amizades ruins, coisa que você fazia por mim antes, tenho que ser forte e segurar aquele palavrão que o meu chefe merecia mas você me ensinou que um profissional sério não sai de si tão facilmente.

Tenho que criar meus próprios ritos de sábado à tarde, que antes eram fazer bolo e dançar loucamente na cozinha com você. Tenho que tirar o pijama aos domingos, fazer almoço, fazer o jantar e não simplesmente ler um livro enquanto espero que você faça tudo por mim.

Tenho que assistir aquele filme incrível sem companhia e não ter ninguém pra chorar timidamente comigo, tenho que sentir falta do abraço que era a fortaleza que eu precisava em um dia ruim e da sinceridade que me ensinava a ser um ser humano melhor todos os dias.

Mas não pense que é fácil para mim, vai doer todos os dias da minha vida, não voltar para casa e ver seu sorriso tranquilo, poder contar cada detalhe do dia e não sentir um mínimo sinal de tédio no seu rosto.

Vou sentir saudade mesmo quando eu tiver dois filhos, mesmo quando eu tiver oitenta anos, mesmo quando eu tiver escrito o melhor livro da história.

Preciso ir mãe, mas te levo sempre comigo.

Samanta Selzler

 

Texto publicado originalmente aqui

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